sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Nada

Todos voltamos à origem. Resta saber sobre esse ponto esquecido no espaço que ocupamos, quer seja este, ou qualquer outro no espaço etéreo. 
O que é o “nada”? Inexistência, o vácuo, o vazio absoluto, um buraco negro no Universo? Mas se o “nada” existe para nos dar a percepção da não existência, então é porque existe algo.
O “Nada”, conduz-nos a muitas ilações, e quase sempre tecemos considerações filosóficas sobre o seu conteúdo. 
Mas se no “nada” existe nada, então porque procurar algo que não existe?

“Deus”, uma palavra forte para quem acredita na sua existência. 
“Nada”, outra palavra forte para os incrédulos na existência de Deus. 

Estes homens de pouca fé sabem pouco da vida que lhes permite serem vida neste ponto que deve ter sido um “nada”, mas agora é tudo o que Deus quer. Pensarmos nestes conceitos é termos consciência e, se ela existe para nos levar a pensar, então outras formas elevadas do Ser estão presentes para nos levar onde Deus quiser. Procurar entender os sinais é ir longe na procura de um nome. Assim o fiz, preenchendo um espaço nas minhas memórias com um nome sonante, uma força viva da terra. 
Terra agreste no meio da nada, trabalho e mais trabalho e o Nada sempre presente ocupando o espaço dos que viviam na miséria, com fome de tudo. Fome de comida,  fome de se saberem gente e de se apresentarem sem medos, como tal. 
Foi no meio deste Nada que nasceu a minha curiosidade. Penso que se ela tinha consciência desse nada aparente, então terá feito desse nada, um caminho para ter algo, limitando-se a sobreviver. (Curiosamente sobre tanta coisa e nada sobre coisa alguma que existe nesse nada a empurrar o cosmos, sabe-se lá para onde). 
Nada – uma palavra solta a revelar-me ainda alguma coisa. Existe para dar vida ao próprio nada.

Dizem que os nomes com os quais nos baptizam, revelam muito da nossa personalidade. O nome representa a força vital de um indivíduo.
Pensando nisto, tentei extrair algo desse universo do nada que o fez ser um Ser na terra de ninguém, e continuar a inseri-lo nas minhas memórias. 
Tudo se encontrava ausente, inexistente, mas ao mesmo tempo, transparente aos meus olhos. Tanto, que cheguei a ter visões de um nada quase a saltar-lhes da retina, como se fossem o depósito de todas as cegueiras ainda vivas.

Precipitei-me então para outro cenário onde o tudo é ainda permanência. Estava ali todo espalhado pelas diversas imagens que constituíam o final do primeiro acto. Os actores tinham deixado vestígios da sua representação. Os corpos sumiram, as palavras, silenciaram-se, os olhares, fecharam-se, as suas bocas serviam de entrada para um poço sem fundo. Espreitando, dava para perceber como era pesado o ar que enchia esse buraco negro. Tudo se materializaria de novo, enquanto do outro lado tentava a todo o custo tocar aquelas partículas desintegradas de um tudo/nada ainda vivo.


Dolores Marques 


terça-feira, 1 de julho de 2014

Desassossego

Quando existem Pessoas com a capacidade intrínseca de esmiuçar palavras, verso a verso, poema a poema, revoltam-se as páginas em branco .....sente-se a respiração ofegante do livro e no imediato momento permite-se ficar em silêncio.
Muito agradecida a Sofia Gabro, Filipe Campos Melo, Ana Coelho e São Gonçalves pelas palavras novas que permitiram que o livro repousasse no seu desassossego.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Geometricamente



Cortou as correntes 
que o aprisionavam ao lugar cativo

Tentou amenizar a densa neblina
mas, o ar que ainda inspirava
seduzia-o, 
levando-o aos lugares comuns

Oblíquos cómodos dos acomodados 
aos movimentos contrários 

Imagens profanadas
pelo quebranto dos desafortunados 
e a cúpula corrompida
pelo próprio corpo

Afloravam prantos aos seus olhos  
ao migrarem correntes,
por todos os poros da sua tez branca

Domesticou-se por fim, 
o único sobrevivente
da terra lavrada, arada e semeada

Já crescem as novas raízes
que geometricamente,
pendem nos seus braços

Aproxima-se um tempo
de mudança

DM/Dakini 

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Nó cego



O vítreo 
lugar dos moribundos
sacudiu os vivos
e despertou os mortos

Revoltaram a terra
e seguiam por trilhos
nunca antes vistos

Torpor sonolento
mas abrupto momento
excomungado, entorpecido
empobrecido

Mirrados sons 
erguiam-se nos altares
em voz una

Rezavam todos, o terço
no final das horas 

As almas 
sabiam dos lugares cativos
das imagens, ainda submersas
na terra húmida

Contemplavam
o despertar de todos
os déspotas e malfadados pontos 
unidos por um único 
nó cego
*
DM/Dakini
Desenho de António Moura

quarta-feira, 19 de março de 2014

Silêncios


Que silêncio este
que se transforma
em hábitos
comuns dos vivos

Que silêncio mórbido
quando por nada
se agita
e por tudo se aquieta

Já os rios correm
sem conhecerem
as margens
e nem as ramagens
que tocam ao de leve
a fina corrente

Já os gritos
sacodem mundos
e estes se afundam
nos seus próprios
silêncios

Dolores Marques/Dakini
Foto minha: Rio Paiva Castro Daire

segunda-feira, 17 de março de 2014

Cruz

Malfadados pontos
em cruz
que determinam 
um ponto único 
onde nasce a verdade
cruzada nas mãos 
dos santos
que já nem sabem 
o local exacto 
onde os torpes
se alimentam

Um lamento
no tempo devido
gemidos vadios
a tocar às almas
arrombam as portas 
do céu

Terra lavrada
e pisada 
por todos
os que têm fé
nos movimentos
inconstantes
que definem
o princípio 
e o fim de tudo

Nas trincheiras 
do sonho
só um pouco 
de faz de conta,
um ponto 
e contracenar
com um contraponto

Caiu do alto da montanha
um cisco leve
já foi chama errante
por todos os quadrantes
do seu único ponto
quando a fonte secou
e não lhes lavou os pés

O sol determina
o local exacto
onde será erguida 
a cruz


Dolores Marques (Dakini)

sexta-feira, 14 de março de 2014

Um nada absoluto

Caminhei sobre a terra
descalça

Sem saber para onde ir,
fiquei por ali
alimentada por um nada
absoluto,
um culto alimentava
o medo
e cultivava o luto,
até que voltasse a primavera

Era a dureza fria
nua e crua
pisada e recalcada
sem regadios
nem estios
nem sequer abençoada
a poeira seca
onde enterrava os pés


DM(Dakini)

quarta-feira, 12 de março de 2014

Fundo do mar



Se por dor ou até por medo da morte
Me for, antes do céu se colar à terra
Se por ser assim tão certa a minha sorte
Cantarei as notas certas da melodia da serra

Mas se chegar antes do fim, ao mar
Saberei distinguir qual o Deus             
Que deixei de acolher, e ficarei a pregar
Aos ventos e brisas que já foram meus

Será essa a cruz que dividirá o espaço
Esse ponto a cortar em dois um tempo
E o fará nascer no meu olhar baço

Se por dor,  ou se por medo do acordar
Sem saber até, onde mora o sonho
Lhe direi dum sítio lá no fundo do mar

Dolores Marques /ÔNIX

terça-feira, 4 de março de 2014

Dakini


a Deusa em transe 
movimenta-se à volta 
do meu próprio centro
em tântricos desejos
até ao êxtase
na catedral do amor

corpos suados
e enterrados 
com um manto de eras comuns
à sua divindade

foco de luz descontinuado
em sentido inverso
rodopio frenético
num mimetismo aquático

submerge em prantos doces
a minha alma
que te quer degustar 
e encontrar-se
nesse mar e amar 

é como penetrar, favos de mel 
quentes, maduros
inspirar-te com um beijo 
em meio tom
e outro assim, assim…

espera-nos um céu sem cor
e uma boca escancarada 
para o mundo


Dolores Marques: Dakini - Mulheres de Areia/2010

segunda-feira, 3 de março de 2014

Em transe



a rua onde moro 
é escura no pranto
ladainha surda 
como um lobo de matilha
na voz clara 
viva de amianto

o beco onde te encontro
é mansão de luas novas
calafetadas nos beirais 
onde vive um lobo isolado

uivo quente
eloquente
em transe por mais
sempre mais…
calafrios medievais


Foto minha
Dolores Marques; Dakini -Uivam os Lobos

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Desabafos

Eu desabafo com muitos dos meus amigos que comigo fazem a festa dos dias. Só para não cair na tentação das falas e falácias dos mais ousados, nem me sentir sugada pelos seus tentáculos, que tentam a todo o custo abraçar o mundo… (como se o mundo fosse um mar à espera de ser explorado). Ledo engano, o dos torpes que sabem manejar armas bélicas que se acomodam no lugar do seu coração. Não caio nesse mar e prefiro desabafar. Dizer NÃO e rasgar com palavras os modos informes dos que navegam por águas profundas e desconhecidas. Por lá ainda se ouvem as velhas teorias altruístas dos benfeitores da terra:

- Salvem-se todos, mas EU em primeiro lugar, diziam uns
- Salvem-se primeiro as CRIANÇAS e os VELHOS, diziam outros
- Salve-se a HUMANIDADE, diziam ainda alguns
- Salve-se a ESPÉCIE  HUMANA, diziam muitos
- Salve-se o PLANETA, para que renasça uma nova ordem natural e justa para todos, ouve-se ainda, um grito profundo.

Desabafei,  mas não me acostumei ainda a este amontoado de ideias a trazer acoplado um sem número de interesses, que criam  raízes novas, em terra infértil.  
Já muitos não se dispõem a ouvir-lhes nada, porque desse nada, nascem gritos agudos, astutos e convenientes, interesses vários em todas as direções, onde já nasceu um novo GRITO HUMANO: 
SALVE-SE QUEM PUDER


DM (Dakini)

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Códigos

Ônix- Objetivando a distância que vai de um olhar a outro, sem ter que se perturbar pelo brilho que daí emana, tem sempre na mira um olhar novo, pronto para assaltar qualquer rosto em prol de um momento, ou vários momentos que lhe digam como anda o seu olhar.

Dakini - Triste, tão triste é a sombra onde deita os seus sonhos, que nem sempre vê, que parte dela, é um todo remanescente da sombra de outro olhar triste que em si se estende. Furou-se-lhe a lente, deturpou-se-lhe a mente esse fogo que o consome. 

Epifania - Arde em mim desde que me perdi num labirinto, quase a extinguir-se nos meus olhos. Terei na mira uma soma de partículas, de uma lente tosca, baralhada por um foco incendiário a tremer-lhe nas mãos cálidas sobre o branco dos lençóis. 

Ainafipe -Se fossemos mais próximos, para lhe contar de mim, de todos os segredos que sendo meus me ultrapassam, me levam para um dormitório, comum, onde as almas vagueiam e comunicam por códigos...Códigos que emitem sons saídos de dentro de mim.

Ônix - Se eu pudesse ter alguém que me amasse, e me tocasse, e me sentisse, talvez eu conseguisse que esses sons me libertassem por mim. Só por mim, para deixar de viver esta angústia que por não ser angústia, o é, sempre que me preparo para amar alguém e esse alguém se vai.

- Dakini - É como se os sons de alguma forma os tocassem...e lhes dissessem, coisas…muitas coisas. As lágrimas não caem, os olhos ardem, o nariz funga, e as ideias permanecem submersas, quase a saltar pelas narinas, ao encontro de um momento que me diga onde encontrar à transparência, todos os olhares que se fecharam e se misturaram nas sombras inquietas que em mim fazem ninho, para cairem e rodopiarem à volta dos seus clarividentes e esmiuçados olhares.

Epifania- Tenho um frio estranho no braço direito, e na mão direita também. É a mão que tenho mais à mão, por não querer saber de amores, nem de sentires. 

Ainafipe - E eu...Quero dormir somente


DM = (ÔNIX + Dakini + Epifania ) = Dolores Marques

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Blocos de gelo

Arrepiei-me toda, quando de manhã saí para a rua e vi um gato branco abandonado à sua sorte.  Agora me lembro, que o ouvia miar junto à minha janela. Só não sabia que era branco. Quase todos os gatos abandonados, são da cor da fome que os traz ao colo. 

Esta desordem matutina por não saber distinguir os sons dispersos noturnos. Muitos, são ecos desalmados, a esburacar os tímpanos de quem tem desconfigurados, os sentidos todos.  Depois as manhãs surgem assim, num dualismo que consente misturar o passado com o presente. Mistura-se o  preto com o branco, e quase sempre sobressai mais o negro. Até parece que a noite solidificou de repente e não deu lugar ao dia. 
Tudo é um bloco de gelo, e dentro dele, o nevoeiro.  
Tudo se move em direção ao rio.
Amanhã, é um outro dia, talvez….


DM (Dakini – Eventos 2014)

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Por termos em nossas mãos o mundo

Com São Gonçalves

- Aproxima-se a noite e eu contemplo o céu, a imensidão do mundo, e tantas tempestades adormecidas neste céu rasgado de magia. Os temporais acalmaram o desejo, apenas percorro a via-sacra da vida, para que dela renasça mais forte e mais serena.

- Impetuoso o gesto perecido no além. Mereceu tudo e nada lhe foi doado, a não ser dor da partida, sem conhecer a verdade do aquém. Rompe as nuvens com desdém e alcança o mar acetinado, onde a partida já foi chegada. O dia já nasceu na noite e na noite nascerá o dia. Percorre todos os trilhos das baixas marés, em absoluto silêncio. Ouve-se agora o som eterno da alvorada.

- Encosto-me ao parapeito do tempo. O meu corpo abriga-se nas encostas e a alma cede ao desejo de mudança. Os cansaços dissipam-se nesta grandeza infinita e as vozes calam-se quando a brisa do vento me acaricia o rosto.

- Correm rios no teu corpo. Descansa agora, enquanto o sono não vem. Já o toque às almas aconteceu quando o sol se pôs. Nada se afigura distante. Só o Universo é grato pela luminosidade crescente em cada corrente que trespassa o véu que te enlaça.

- Voluntário o desejo de transformação que se aninha nas dobras dos dias. Invento e reinvento amanhãs promissores. A vida decorre sempre entre as madrugadas e as noites que se consomem pausadamente, sem pressas.

- Se todas as manhãs fossem só tuas, serias o tempo de mudança a madrugar nos teus olhos. Mas quem sou eu, se não uma força a caminhar contra o tempo? Se conseguíssemos acomodar o tempo no nosso pequeno mundo, já teríamos dado graças a Deus por termos em nossas mãos, o mundo.

-A paz como alimento das noites, é o consolo que ainda me resta neste tempo incerto. Na minha pequenez colho do tempo o que ele tem de mais belo para me oferecer. Nem sempre me afasto das sombras, nem sempre me protejo dos temporais. O céu ora se tinge de negro, ora se aclara de luz.

- E nesse meio tempo, as luzes acendem-se em todos becos onde te escondes. Será sempre um dia ou uma noite a menos nos nossos sonhos. Sabias de um tempo em que se colhiam orquídeas brancas nos matagais?

- Nesta encosta acompanho os movimentos que transcendem o espaço e por vezes se elevam acima das luzes frágeis da cidade. E apenas as clareiras que se avistam
num horizonte a perder de vista, me trazem a luz tão desejada nas noites de procura.

- Existem credos em todas as orações. Crer num espaço inédito, e criar nele um campo de visão obrigatória para lá, é ter fé na nossa fé. A minha cidade sabe de todos os becos escuros e sombrios, e eu nada sei da cidade. Só vejo daqui as luzes ainda reflectidas nas águas do Tejo.


São Gonçaves e Epifania dos Anjos (Epifania)

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Prometeu

Zanguei-me com os Deuses, por não me prometerem levar ao seu céu. É que, aqui em baixo, sem promessas e profecias, não se vai a lado nenhum. Talvez exista um lugar único no mundo capaz de me acolher, mesmo que os Deuses adormeçam num colchão de água, onde já afundaram as mais antigas promessas. Se alguém souber onde é.....prometo que da próxima vez, não me zango, nem com os Deuses, e nem com o ser único da terra, mesmo que este seja um Deus em vias de extinção. 
Prometeu já se calou uma vez. Haverá de se levantar das cinzas. Enquanto isso, vou aliviando todos os altares, para que me seja dada ordem inversa, ao prometido. 
Finalmente o céu desceu à terra!

DM; (Dakini – Eventos 2014)

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Cansa-me

Cansa-me não saber de onde vens, e porque vens, se no vir arrastas atrás de ti, tantos temporais, do tempo em que sabias que seria assim, mais ou menos …tudo um cansaço em demasia. 

Tudo é frio e monótono, neste tempo, neste espaço. Tudo é ordenado por ordem inversa. Tudo se apresenta disfarçadamente colorido de cores metafísicas, híbridas e distantes. 


Dolores Marques (ÔNIX)

Predestinações

E se o vento rasgar todos os implantes, frequentadores de uma ordem desequilibrada, e os desfilar farrapo a farrapo, no chão que pisamos? 
Calcaremos todas as sobras desse malefeito, que enquanto não cega, cada um de nós, vai sendo remendo em trapo a cobrir os corpos gélidos e travestidos, amantes das noites que nos afogam nos seus silêncios malditos?

Já esta espera, é por fim, o fim predestinado a ser vento a soprar em todas as direções. Mas, se o tempo renegar este meu fim, serei então mais um daqueles espantalhos, a enfeitiçar o ar que respiro. 

Eis que mais um evento acontece! Inspirarei então a nova ordem de todas as coisas, naturalmente indiferentes aos padrões canonizados e exaltadas no fim de tudo.

Dolores Marques (Dakini – Eventos 2014)

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Ao Fundo de Mary

Amanhã é um novo dia. Hoje já começa a ser tarde para pensar, isto se o pensar se limitar a esperar. Caem as folhas das árvores. Este remoinho seco já não espera pelos ventos ciclónicos de amanhã. Faz-se cedo nos meus pés. Conto os buracos no chão, desde o início do inverno. Penso em como Mary se movimenta entre uma rua e outra, e como por vezes, arrasta os seus pés de chumbo. São muitas as quedas, porque o amanhã não espera pelas novas folhas. Ao fundo, também o Tejo afunda algumas estrelas desnorteadas, que aguardam para brilhar nas noites mais curtas. 

Indiferentes os meus passos, seguem rumos que me parecem ser os de amanhã. Mas a rua onde moro, é ainda um caminho longo. Custa-me passar por ela, sem lhe contar os buracos, de quando ainda era outono. Entre a Zona J de Chelas, passando por Braço de Prata, encontro-me agora junto às docas do Poço do Bispo. Alguns pescadores sentados, outros de pé, seguram as canas que se erguem. Quase se afundam no nevoeiro que teima em esconder as correntes agora paradas. Nada se move, a não ser este bafo quente que sai agora da minha boca. Faço-lhes companhia, eu e os remoinhos que arrastei, com algumas folhas ainda presas nas fivelas das minhas botas. Tenho que trocar o calçado, isto para não trocar os passos, que me obrigariam a trocar de pés. Mas, com tudo isto, ainda é inverno, pelo que não se consegue ver ao longe, por causa do nevoeiro(...) 


Dolores Marques com Dakini “Ao Fundo de Mary” (a editar)