segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Códigos

Ônix- Objetivando a distância que vai de um olhar a outro, sem ter que se perturbar pelo brilho que daí emana, tem sempre na mira um olhar novo, pronto para assaltar qualquer rosto em prol de um momento, ou vários momentos que lhe digam como anda o seu olhar.

Dakini - Triste, tão triste é a sombra onde deita os seus sonhos, que nem sempre vê, que parte dela, é um todo remanescente da sombra de outro olhar triste que em si se estende. Furou-se-lhe a lente, deturpou-se-lhe a mente esse fogo que o consome. 

Epifania - Arde em mim desde que me perdi num labirinto, quase a extinguir-se nos meus olhos. Terei na mira uma soma de partículas, de uma lente tosca, baralhada por um foco incendiário a tremer-lhe nas mãos cálidas sobre o branco dos lençóis. 

Ainafipe -Se fossemos mais próximos, para lhe contar de mim, de todos os segredos que sendo meus me ultrapassam, me levam para um dormitório, comum, onde as almas vagueiam e comunicam por códigos...Códigos que emitem sons saídos de dentro de mim.

Ônix - Se eu pudesse ter alguém que me amasse, e me tocasse, e me sentisse, talvez eu conseguisse que esses sons me libertassem por mim. Só por mim, para deixar de viver esta angústia que por não ser angústia, o é, sempre que me preparo para amar alguém e esse alguém se vai.

- Dakini - É como se os sons de alguma forma os tocassem...e lhes dissessem, coisas…muitas coisas. As lágrimas não caem, os olhos ardem, o nariz funga, e as ideias permanecem submersas, quase a saltar pelas narinas, ao encontro de um momento que me diga onde encontrar à transparência, todos os olhares que se fecharam e se misturaram nas sombras inquietas que em mim fazem ninho, para cairem e rodopiarem à volta dos seus clarividentes e esmiuçados olhares.

Epifania- Tenho um frio estranho no braço direito, e na mão direita também. É a mão que tenho mais à mão, por não querer saber de amores, nem de sentires. 

Ainafipe - E eu...Quero dormir somente


DM = (ÔNIX + Dakini + Epifania ) = Dolores Marques

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Blocos de gelo

Arrepiei-me toda, quando de manhã saí para a rua e vi um gato branco abandonado à sua sorte.  Agora me lembro, que o ouvia miar junto à minha janela. Só não sabia que era branco. Quase todos os gatos abandonados, são da cor da fome que os traz ao colo. 

Esta desordem matutina por não saber distinguir os sons dispersos noturnos. Muitos, são ecos desalmados, a esburacar os tímpanos de quem tem desconfigurados, os sentidos todos.  Depois as manhãs surgem assim, num dualismo que consente misturar o passado com o presente. Mistura-se o  preto com o branco, e quase sempre sobressai mais o negro. Até parece que a noite solidificou de repente e não deu lugar ao dia. 
Tudo é um bloco de gelo, e dentro dele, o nevoeiro.  
Tudo se move em direção ao rio.
Amanhã, é um outro dia, talvez….


DM (Dakini – Eventos 2014)

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Por termos em nossas mãos o mundo

Com São Gonçalves

- Aproxima-se a noite e eu contemplo o céu, a imensidão do mundo, e tantas tempestades adormecidas neste céu rasgado de magia. Os temporais acalmaram o desejo, apenas percorro a via-sacra da vida, para que dela renasça mais forte e mais serena.

- Impetuoso o gesto perecido no além. Mereceu tudo e nada lhe foi doado, a não ser dor da partida, sem conhecer a verdade do aquém. Rompe as nuvens com desdém e alcança o mar acetinado, onde a partida já foi chegada. O dia já nasceu na noite e na noite nascerá o dia. Percorre todos os trilhos das baixas marés, em absoluto silêncio. Ouve-se agora o som eterno da alvorada.

- Encosto-me ao parapeito do tempo. O meu corpo abriga-se nas encostas e a alma cede ao desejo de mudança. Os cansaços dissipam-se nesta grandeza infinita e as vozes calam-se quando a brisa do vento me acaricia o rosto.

- Correm rios no teu corpo. Descansa agora, enquanto o sono não vem. Já o toque às almas aconteceu quando o sol se pôs. Nada se afigura distante. Só o Universo é grato pela luminosidade crescente em cada corrente que trespassa o véu que te enlaça.

- Voluntário o desejo de transformação que se aninha nas dobras dos dias. Invento e reinvento amanhãs promissores. A vida decorre sempre entre as madrugadas e as noites que se consomem pausadamente, sem pressas.

- Se todas as manhãs fossem só tuas, serias o tempo de mudança a madrugar nos teus olhos. Mas quem sou eu, se não uma força a caminhar contra o tempo? Se conseguíssemos acomodar o tempo no nosso pequeno mundo, já teríamos dado graças a Deus por termos em nossas mãos, o mundo.

-A paz como alimento das noites, é o consolo que ainda me resta neste tempo incerto. Na minha pequenez colho do tempo o que ele tem de mais belo para me oferecer. Nem sempre me afasto das sombras, nem sempre me protejo dos temporais. O céu ora se tinge de negro, ora se aclara de luz.

- E nesse meio tempo, as luzes acendem-se em todos becos onde te escondes. Será sempre um dia ou uma noite a menos nos nossos sonhos. Sabias de um tempo em que se colhiam orquídeas brancas nos matagais?

- Nesta encosta acompanho os movimentos que transcendem o espaço e por vezes se elevam acima das luzes frágeis da cidade. E apenas as clareiras que se avistam
num horizonte a perder de vista, me trazem a luz tão desejada nas noites de procura.

- Existem credos em todas as orações. Crer num espaço inédito, e criar nele um campo de visão obrigatória para lá, é ter fé na nossa fé. A minha cidade sabe de todos os becos escuros e sombrios, e eu nada sei da cidade. Só vejo daqui as luzes ainda reflectidas nas águas do Tejo.


São Gonçaves e Epifania dos Anjos (Epifania)

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Prometeu

Zanguei-me com os Deuses, por não me prometerem levar ao seu céu. É que, aqui em baixo, sem promessas e profecias, não se vai a lado nenhum. Talvez exista um lugar único no mundo capaz de me acolher, mesmo que os Deuses adormeçam num colchão de água, onde já afundaram as mais antigas promessas. Se alguém souber onde é.....prometo que da próxima vez, não me zango, nem com os Deuses, e nem com o ser único da terra, mesmo que este seja um Deus em vias de extinção. 
Prometeu já se calou uma vez. Haverá de se levantar das cinzas. Enquanto isso, vou aliviando todos os altares, para que me seja dada ordem inversa, ao prometido. 
Finalmente o céu desceu à terra!

DM; (Dakini – Eventos 2014)

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Cansa-me

Cansa-me não saber de onde vens, e porque vens, se no vir arrastas atrás de ti, tantos temporais, do tempo em que sabias que seria assim, mais ou menos …tudo um cansaço em demasia. 

Tudo é frio e monótono, neste tempo, neste espaço. Tudo é ordenado por ordem inversa. Tudo se apresenta disfarçadamente colorido de cores metafísicas, híbridas e distantes. 


Dolores Marques (ÔNIX)

Predestinações

E se o vento rasgar todos os implantes, frequentadores de uma ordem desequilibrada, e os desfilar farrapo a farrapo, no chão que pisamos? 
Calcaremos todas as sobras desse malefeito, que enquanto não cega, cada um de nós, vai sendo remendo em trapo a cobrir os corpos gélidos e travestidos, amantes das noites que nos afogam nos seus silêncios malditos?

Já esta espera, é por fim, o fim predestinado a ser vento a soprar em todas as direções. Mas, se o tempo renegar este meu fim, serei então mais um daqueles espantalhos, a enfeitiçar o ar que respiro. 

Eis que mais um evento acontece! Inspirarei então a nova ordem de todas as coisas, naturalmente indiferentes aos padrões canonizados e exaltadas no fim de tudo.

Dolores Marques (Dakini – Eventos 2014)

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Ao Fundo de Mary

Amanhã é um novo dia. Hoje já começa a ser tarde para pensar, isto se o pensar se limitar a esperar. Caem as folhas das árvores. Este remoinho seco já não espera pelos ventos ciclónicos de amanhã. Faz-se cedo nos meus pés. Conto os buracos no chão, desde o início do inverno. Penso em como Mary se movimenta entre uma rua e outra, e como por vezes, arrasta os seus pés de chumbo. São muitas as quedas, porque o amanhã não espera pelas novas folhas. Ao fundo, também o Tejo afunda algumas estrelas desnorteadas, que aguardam para brilhar nas noites mais curtas. 

Indiferentes os meus passos, seguem rumos que me parecem ser os de amanhã. Mas a rua onde moro, é ainda um caminho longo. Custa-me passar por ela, sem lhe contar os buracos, de quando ainda era outono. Entre a Zona J de Chelas, passando por Braço de Prata, encontro-me agora junto às docas do Poço do Bispo. Alguns pescadores sentados, outros de pé, seguram as canas que se erguem. Quase se afundam no nevoeiro que teima em esconder as correntes agora paradas. Nada se move, a não ser este bafo quente que sai agora da minha boca. Faço-lhes companhia, eu e os remoinhos que arrastei, com algumas folhas ainda presas nas fivelas das minhas botas. Tenho que trocar o calçado, isto para não trocar os passos, que me obrigariam a trocar de pés. Mas, com tudo isto, ainda é inverno, pelo que não se consegue ver ao longe, por causa do nevoeiro(...) 


Dolores Marques com Dakini “Ao Fundo de Mary” (a editar)