domingo, 23 de novembro de 2008

Vale do silêncio


Encontro-me ainda assim. Os poros da minha pele alongam-se com os resquícios do teu bafo quente.
Nua a teus pés!
Atinge-me a alma, a profundidade do teu olhar, despes-me num momento em que parei de sonhar. Quebrei o encanto, por querer saber a razão dessa quietude, esse planar percorrendo a fragilidade do meu corpo. O fundo dos teus olhos recuou e vesti-me da cor da noite que ronda este espaço vazio. Percorro-o horas a fio sem encontrar o fio condutor desta história nos retiros onde descansamos os corpos e navegamos nos rios da paixão. Tu com as pernas cruzadas em jeito de me abalroar no chão desta sala onde me estendo agora para te encontrar.
Fragmentos consumidos: um cheiro a maresia no ar, o meu corpo embevecido da aragem fresca e das essências florais que desceram do monte, ainda se encontra por lavar. Sofro por não saber quem és quando te vejo sobrevoar este vale que sobrevive às intempéries. Esconde-se nas águas transparentes do ribeiro que passa. Lembro o teu jeito como quem espera por um passo de dança, sem saber como aprender a dançar, e eu que adoro, fico de um jeito como quem espera por um novo recomeçar, num palco construído de sonhos com algumas lágrimas suspensas no ar quente da encosta. Encenavas algumas preces e conduzias-me até ao cume do teu pensar, um sol que desponta sob as fragas que terei que galgar, para atingir os rios que me levam até esse mar. Este ermo coberto da terra quente, um doce cheiro a frutos silvestres cobrem a neblina perfumada nas profundezas deste vale.
Ligo-me ao mundo exterior, na esperança de sentir que me toques com as tuas palavras e me sintas voando destes pequenos nadas. Tento alcançar-te o pensamento. Nada mais existe, a não ser esta magia que se estende na longevidade deste mar, as ondas que me segredam versos que todo o mundo leu e ninguém viu. Os corpos afogam-se neste estado de enamoramento e matam os momentos da fome à luz da solidão. Mas estou só no silêncio deste vale que se estende sob o azul do céu sem o poder tocar. Percorro os esconderijos na esperança de te encontrar, dar-te a mão, levar-te comigo para longe deste descampado que esfria nestes labirintos sem portas nem janelas já no fim do verão. Fecham-se quando me vêm chegar, fico do lado de fora na ânsia de te ver escavar alguma brecha e sorrires para mim, mas só vejo as sombras da noite que está prestes a chegar.
Lembro o jardim de onde avistamos o rio, eu com vontade de te amar e medo de me perder nos carreiros estreitos que a folhagem esconde sombreando os caminhos que me levam a ver a luz do sol. Mas quero amar-te mesmo assim, sem nadas, mas com tudo o que puder encontrar. Só eu e tu em lençóis desfeitos enrolados ao meu corpo, entras e trazes nas mãos um doce molhado, framboesas esmigalhadas, sobremesa na cama, delícia a sonhar nestas paredes que esboço com os dedos, o meu olhar no teu olhar... Crio-te, guardo-te nestes recantos da alma e és só para mim. Este desejo que cresce e me arrasta sem rumo certo, onde escrevo histórias sem lhes dar um fim, fica suspenso no voo silencioso, na imensidão deste vale

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1 comentário:

VÓNY FERREIRA disse...

Deste belo texto há tanta, tanta coisa que gostaria de destacar.
Não fazes a mais pequena ideia o quão é difícil fazê-lo, qual foi a forma extasiada como li este pedaço de céu, em forma de palavras.
Destaco apenas esta frase:

"Este ermo coberto da terra quente, um doce cheiro a frutos silvestres cobrem a neblina perfumada nas profundezas deste vale." Como poderia destacar muitas mais...
É inexplicável o que senti enquanto te lia. As tuas palavras reflectem com uma transparência divina o que te atravessa a alma, tenha lá isso o nome que tiver.
Eu resolvi arranjar um nome.
POESIA PURA!

Vóny Ferreira