quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Sublimação III


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André confronta-se com tudo isto, mas sem forças para poder chegar a algum lugar. Limita-se a ajudar como pode. A sua esposa apoia-o incondicionalmente, os seus filhos admiram esta sua forma e estão decididos a seguir-lhe os passos. Sempre que sabem sobre crianças mal alimentadas na escola, alertam os pais e levam comida a duplicar, para lhes matar a fome. “Como é possível estar agora nesta situação?” Pensa. 
De repente uma luz, sim uma luz que irá defender com unhas e dentes. Lembrou de uma noite em que a sua casa foi invadida por sombras que se movimentavam na sala. Ele estava só. As sombras deslizavam pelas paredes até chegarem ao chão e ai se materializarem. Corpos esbeltos, musculados, olhos grandes em tom de amarelo. Os cabelos eram milhares de fios de ouro entrelaçados e enrolados nos seus corpos em forma de serpente. As mulheres vestiam mantos transparentes da cor do luar deixando à mostra os seus corpos. Seminus, andavam de um lado para o outro mas não o viam ali sentado no sofá. Os seus olhos aterrorizados, mas ao mesmo tempo, confrontados com aquela beleza, deixaram-no pregado ao maple sem conseguir mexer-se. 

Ele não entendia o que pretendiam, mas da forma como o mundo tinha evoluído, já nada podia ser uma surpresa. Uma coisa ele sabia, nunca tinha visto humanos com estas formas. Os habitantes das naves eram tal como ele, pessoas que só quiseram subir mais um degrau e estão acima deste submundo com o intuito de comandarem e serem os próximos deuses a ser venerados por todos os que quiserem ser seguidores de uma raça a iniciar-se no novo mundo. Mas estes seres quem são? Ele gostava que estes fossem os primeiros da próxima raça a tocá-lo por dentro. A Concórdia Branca já povoa o céu. Ele sabe-o, intuiu-o numa noite em que andava pela rua em busca dos sem-abrigo. Viu uma fina luz que desceu até ao mar e assim desapareceu, deixando um manto dourado sobre as águas. Caminhou na sua direção, galgou as dunas que iam dar à praia e ficou ali sentado junto à rebentação das ondas que traziam com elas, partículas douradas que o tocavam e o faziam resplandecer de tons brilhantes. Uma delas ficou ali bem junto aos seus pés e cresceu como uma flor. Primeiro o corpo em forma de caule, depois as pernas, os braços, a cabeça em forma de folhas verdes. A face, os olhos e a boca deram lugar a uma jardim. A sua boca abre-se e ele vê de dentro dela, formarem-se sois a abrirem como uma flor. Pétalas de várias cores a darem voz aquele Ser. Nisto, ouve uma voz que lhe diz.

“Tu não és deste mundo. Vieste sombra em torno do meu corpo e geraste luz no meu ventre. É agora o momento de deslizares sobre ele e te movimentares mais em torno de mim. Preciso sentir que voltarás a ser o eleito. Terás que mudar essa forma meio arcaica que adquiriste nas ruas escuras da tua cidade. Tens agora um mar de cetim para navegar.

André está prestes a balbuciar algumas palavras, mas esta imagem paralisou-o. Não sabe que fazer nem o que falar. Olha-a simplesmente. Admira a sua beleza, a sua luz, a sua claridade. Deixa-se ficar assim, fecha os olhos e sente o seu corpo inundado por ela. Uma sensação diferente. Não lhe consegue sentir as formas, o corpo. O prazer é desmedido. Os orgasmos quase a tocar o céu, o seu corpo é tomado por sensações até ali desconhecidas.

É já manhã, acorda deitado na areia fina. Olha à sua volta e vê as dunas, sobrepostas numa praia deserta. O mar é um manto negro, as casas ao longe danificadas e as naves nos céus sempre prontas para que não esqueçam que aquele é agora um mundo à parte. O mundo dos eleitos. Lembra do episódio que o fez sentir um homem duma raça futura, o que aquela imagem lhe mostrou e pensa que poderá ter sido uma alucinação, um sonho ou outra coisa qualquer. Volta para casa(...)

(DM; - Sublimação)

Sublimação II




.(...)Estamos em pleno Séc XXX e as máquinas são a força dominadora do planeta. Há-as de todos os tipos, para os mais variados serviços. Existem até grupos da máfia que as utilizam para continuarem a sua saga, manipulando os mais fracos, roubando, assassinando, construindo assim uma força poderosa pronta para dominar o mundo. Muitos, vivem na mais castradora miséria humana. A fome alastra, os rostos são a desolação prestes a acabar com a sua própria vida. Os outros, uma classe à parte como apartados são os lugares onde vivem. Construíram-se naves que povoam a cidade, de onde se pode ver o brilho que emanam salientando assim a forma escura da cidade. Uma cidade em cima de outra cidade, um sub-mundo que aguarda pela sagração das águas que purificarão tudo. A separação do trigo do joio foi iniciada e uma nova calamidade está prestes a chegar.


O homem luta para conseguir entender o que se passa. Sempre lutou contra a discriminação, a desigualdade social, apoiava instituições de proteção às crianças que tinham ficado órfãs de pai e mãe; uns porque se mataram, outros porque os mataram, outros ainda porque desapareceram sem deixar rastro. Andavam pelas ruas da cidade procurando estas crianças abandonadas e sujeitas aos mais variados perigos. Levava-as, alimentava-as e dava-lhes da forma como podia alguma esperança de vida. Sabia que era difícil e que os tempos atuais, não davam tréguas. O mundo tinha mudado. Tudo era escuro e triste. As empresas cada vez mais se distanciavam do mundo das pessoas, e serviam só para enriquecer uns e deixar na miséria, outros. As máquinas eram a sua mais valiosa mão-de-obra, eficientes e disponíveis para trabalhar horas a fio. A riqueza dominava, mas só alguns tinham esse poder nas mãos. Os céus traziam a desolação ao mundo. Era tudo menos pacífico. Aquele azul que servia de teto ao mundo era agora uma fogueira a arder. Delimitavam-se os espaços mas a Concórdia Negra era uma afronta, sempre pronta para atacar. O objetivo era aniquilar tudo o que não se coadunasse com o que definiram como sendo a raça do futuro. A próxima raça do Universo. Já Hitler o tinha tentado, mas sem o conseguir, deixou sucessores que seguiram com a sua ideia desenvolvendo-a. Era chegado então o momento de estabelecer metas, como sendo uma forma de trazerem mais vontades ao mundo dos mortos do que ao mundo dos vivos(...)

(Sublimação - Dolores Marques)