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segunda-feira, 4 de abril de 2011

Buracos negros



- Se os meus dedos conseguissem respirar, dir-te-iam de uma forma entre muitas, de não se confundirem com as letras sobrepostas deste teclado... Viveriam assim, entre um e outro movimento, e saberiam onde encontrar a verdadeira forma de se cruzarem na atmosfera onde respiram já todas as palavras que faltam escrever. Quero que se sintam livres para poderem voar, humanizando todos os buracos negros. È lá onde descanso os olhos e alimento as feras que neles habitam.

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- Há movimentos que se parecem com sombras a furar todos os pontos de encontro onde os nossos olhos se escondem, contudo, se me quiseres escrever, eu leio-te através das formas existentes nas meninas do meus olhos. Sabes como saber, se há momentos em que a leitura é única para se perceber onde se escondem todas as letras que formam buracos negros em todas as palavras mórbidas?

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- Nada sei de buracos negros! No espaço comunicam através de uma magnitude corrente de altos e baixos e parecem-se com a neutralidade que sustenta todas as formas. Será que os nossos olhos são uma forma de sustentar buracos, sem sabermos onde encontrar a verdade de um olhar presente, a caminhar num espaço aberto a novas correntes imaginárias, que só um buraco negro sustenta?

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- Deixa de fomentar verdades enigmáticas e esconde-te num buraco negro qualquer, a tentar decifrar a verdadeira crueza da vida que se faz presente. Será aí que encontrarás formas e normas, em todos os movimentos que sustentam a única palavra que te faz viver. VIDA e tão só VIDA animal, caracterizando uma forma de viver única em todos os pontos onde a verdade é feita de espaços entre palavras e pontos entre letras. Cair em desuso por falta de dedos e buracos negros, é o mesmo que consentir numa dor alheia e não saber da magnitude de um mesmo dejecto a rolar sobre a terra molhada, desorganizado no espaço por falta de correntes espessas a sustentar-lhe as formas interiores de um mesmo buraco negro.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Algures em terra batida

(imgem google)

- À altura da minha cabeça, só mesmo eu, para poder interagir com aquilo que vem do alto. Uma chusma de zumbidos a clarificar os sons e a tentar entrar pelos meus ouvidos. Os meus passos, um à frente e outro atrás e as batidas cardíacas agora mais acentuadas. Olho para cima e ainda falta um bom par de lanços de escadas. O cansaço venceu-me e páro por aqui. Procuro um degrau mais limpo para me sentar. Afago-o com as palmas das mãos, e o pó, é agora uma mancha escura nas pontas dos meus dedos.


- Já te tinha visto em situações idênticas, quando vais às terras altas. Aquela calçada dá cabo de ti. Não entendi ainda porque lhe substituíram as pedras originais, pois se eram aquelas formas polidas de xisto que lhe davam a graça, fazendo com que a subida fosse mais pousada, quando apoiados os pés, naquelas formas que por norma se fechavam em torno dos nossos pés. Cada pedra com a sua cor específica, fazia-me sempre voltar atrás e sentir que a cada pegada um bom par de braços a depositou ali. Agora são só pedras mal formadas e toscas, todas da mesma cor, como se pudéssemos todos ter a mesma força de braços e as mesmas formas nos pés.


- Enquanto isso, dou agora passos mais certeiros, olhado o amontoado de cascalho que não dá sinais de vida debaixo dos meus pés. Ouço-lhe o som rasgado de um choro preso nos calabouços de uma qualquer pedraria, onde o granito é tosco. No entanto, a terra sabe-o bem nas suas mais extravagantes luxúrias, sempre que se dá a ele, e ele se dá a ela. Já nem sei se os meus pés têm a mesma firmeza como quando subiam os montes, para lá se equiparem de mais uma força necessária às últimas pegadas que darei em outro chão.


- Algures em terra batida, há pegadas que se debatem para formarem círculos uniformizando a força de um bom par de braços. Já reparaste que os braços nus, deixam a nu, toda a elasticidade do corpo? As pernas serão sempre uma forma de conjugar os movimentos, de modo a que os braços sejam a força das pernas e as pernas sejam a continuação da força dos braços. Uma forma única do corpo se movimentar e não se deixar cair de bruços, sobre as pegadas que jazem mortas no chão. A terra acolherá sempre uma força de muitos braços a cair-lhe em cima, mas, se porventura as formas caírem, então a terra será a morada certa para que a vida seja sempre vida, e a morte sempre morte a caminhar para lugar incerto.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O Homem era um Homem



- Aquilo que vi e ouvi no caminho que me levou hoje por becos escuros, deixa uma forte sensação de vazio, como se o meu corpo fizesse parte daquele acumulado de pedras negras, ainda a luzir debaixo dos reflexos das luzes dos candeeiros. Digo-te que fiquei completamente tolhida nos muros e nada me fazia arrancar dali. Os cães tremiam de frio os homens trocavam migalhas envoltas em farrapos e a manhã chegava, simplesmente chegava calada e fria. Eu fechei os olhos e deixei-me arrastar pelo vento que me furava a carne e me roía os ossos.
- Entendo que há muros frios e que a cidade é um sítio onde as pedras ganham formas, nessas ruas caiadas de negro. As sombras caem, os pilares aguentam todas as pontes sobre o rio, mas esses ambientes cimentados pelas mãos de quem tem fome, e de quem não tem medo do escuro, é de certa forma assustador. Prefiro ficar aguardando que te lembres do branco dos meus olhos. Ando por aqui nesta cor esbatida, mas não esqueço que não chegamos ainda ao ponto onde os nossos corpos se fundem e os nossos olhos assumem a verticalidade de um momento só nosso. Nunca me chegaste a dizer quantos olhos tens na noite. Talvez esta noite te tenha fornecido novos indicadores de como um olhar se transforma quando vê formas a denegrir ainda mais a noite.
- Nunca pensei quantos olhos são precisos para se cruzarem na noite. O que sei é que vi um homem. Uma figura bizarra a cortar o ar da noite, sempre que inspirava e expirava. Da sua boca saiam lufadas de ar, e do seu corpo uma nuvem de fumo miudinho que enchia o beco de sombras de várias cores. Houve até um momento em que me pareceu que a noite se tinha feito dia e que a cidade se tinha encolhido no corpo daquele homem. Mas o homem era um homem e não um figura daquelas que se vêem desenhadas nas paredes de betão ainda em estado de comiseração. Bem, depois vêm os grafitis, quando tudo estiver silencioso e quando o homem deixar de inspirar e expirar.
- Penso que as noites têm muito mais do que um homem a tentar sobreviver. Há mortes tão lentas que nenhum homem vê, nenhum rio colhe, nenhum caminho escolhe. Há escolhas assim por becos frios, onde os olhos se escondem. Da próxima vez, quero ir…Preciso dos teus olhos …(…)
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Escultura de Ricardo Kersting: A cadeira negra- Fibra de vidro - 1992 -
Salão Cidade de Novo Hamburgo - Obra premiada.