"Príncipe das melhoras horas, outrora eu fui tua princesa e amámo-nos com um amor de outra espécie, cuja memória me doí" Fernando Pessoa
segunda-feira, 10 de agosto de 2015
quarta-feira, 22 de julho de 2015
Códigos
Ônix
- Objetivando a distância que vai de um olhar ao outro, sem ter que se perturbar pelo brilho que daí emana, tem sempre na mira um olhar novo, pronto para assaltar qualquer rosto em prol de um momento, ou vários momentos que lhe digam como anda o seu olhar.
Dakini
- Triste, tão triste é a sombra onde deita os seus sonhos, que nem sempre vê, que parte dela é um todo remanescente da sombra de outro olhar triste que em si se estende. Furou-se-lhe a lente, deturpou-se-lhe a mente esse fogo que o consome.
Epifania
- Arde em mim desde que me perdi num labirinto, quase a extinguir-se nos meus olhos. Terei na mira uma soma de partículas de uma lente tosca, baralhada por um foco incendiário a tremer-lhe nas mãos cálidas sobre o branco dos lençóis.
Ainafipe
- Se fossemos mais próximas, para lhe contar de mim, de todos os segredos que sendo meus me ultrapassam, me levam para um dormitório comum, onde as almas vagueiam e comunicam por códigos...Códigos que emitem sons saídos de dentro de mim.
Ónix
- Se eu pudesse ter alguém que me amasse, me tocasse e me sentisse, talvez conseguisse que esses sons me libertassem por mim. Só por mim, para deixar de viver esta angústia que por não o ser, é-o sempre que me preparo para amar alguém como se fosse a última de todas coisas terrenas.
Dakini
- É como se os sons de alguma forma os tocassem...e lhes dissessem, coisas…muitas coisas. As lágrimas não caem, os olhos ardem, o nariz funga, e as ideias permanecem submersas, quase a saltar pelas narinas, ao encontro de um momento que me diga onde encontrar à transparência, todos os olhares que se fecharam e se misturaram nas sombras inquietas que em mim fazem ninho, para cairem e rodopiarem à volta dos seus clarividentes e esmiuçados olhares.
Epifania
- Tenho um frio estranho no braço direito.... e na mão direita também. É a mão que tenho mais à mão, por não querer saber de amores nem de sentires.
Ainafipe
- E eu...Quero dormir somente.terça-feira, 14 de julho de 2015
Eu Sou ÔNIX, o segundo elemento
Eu Sou ÔNIX, o Segundo Elemento
ÔNIX, (o segundo elemento), pseudónimo de Dolores Marques, a viver em Lisboa, na Zona Oriental da Cidade. Desenvolveu a sua vertente espiritual através da ligação às novas terapias, e de conceitos apreendidos em Seminários, assim como a prática de Taichi/chikung.
Escreve e publica desde 2010, em sites de literatura, assim como nos seus blogues “Rituais do Momento” e “A Voz do Silêncio”.
Não tem livros editados, só uma pequena participação em antologia. Matilde D'Ônix o nome com que se registou na internet deu voz ao estilo introspetivo da sua escrita, onde predomina mais o ensaio em prosa poética. Parte desses textos podem ler-se no blogue “A Voz do Silêncio”. Tem como projetos futuros a edição do livro, onde compilou esses mesmos textos, além de dois livros de poesia.
O outro blogue:
http://silencio-me.blogspot.pt/
terça-feira, 16 de junho de 2015
Geometria
Tudo por conta de um remoinho que criou uma certa ondulação à volta dos nossos pés. Era de tal forma insinuante aquele remoinho, que ficámos sem saber como se deslocou na nossa direcção. O mar estava calmo, as gaivotas em voos simétricos, enfiavam os bicos na areia, e os olhos, nos nossos olhos.
Sôfregas por mais ar renovado, levantaram voo!
Dizia-lhe em tom calmo que tudo aquilo me parecia um eco saído do fundo do mar.
Todo o ambiente era um todo, tanto que nesse todo havia um certo equilíbrio, apesar dos voos assimétricos, causados pelo resvalar de uma gaivota que voava em círculos e criava semicírculos em redor de nós.
Posto isto, evidenciava-se nítido um grito que ecoava ao longo da praia. Saiam de todos os lados, outros gritos desvairados, causando uma melodia eco festiva, nunca antes vista naquele deserto oceânico. Entretanto, também o mar se assumira como um gigante adamastor a tentar engolir o remoinho abandonado. Através da sua garganta funda, a desertora gaivota sumia-se por entre partículas de espuma branca. O contraste agonizava, ante a perplexidade do abominável homem das neves, agora estigmatizado na areia de uma praia deserta.
Continuava a insistir, dizendo-lhe de novo em tom calmo que tudo é um todo e que tudo é aproveitamento do tempo e das marés, que nada se perde nas asas de uma gaivota. Olhou-me com um olhar extasiado e seguiu adiante. Ocupava o mesmo espaço, pisava as mesmas pegadas na areia, que nos fizeram vir nesta direcção.
Ocupava eu um novo espaço, diluído nos voos extraditados no mar alto.
Para um e outro lado regressámos, mas sem certezas de que o tempo iria continuar de feição.
segunda-feira, 15 de junho de 2015
Meio-dia do Sol
Era uma manhã cinzenta. A cidade encolhida na neblina, até que o meio-dia do sol chegasse, sofria de claustrofobia. Chegada, todavia, a hora de todos os caminhantes das nuvens descansarem, sentavam-se no alpendre acabado de construir. Disparavam em uníssono olhares de fome sobre o rio.
Cá em baixo, todos ignoravam aqueles corpos disformes a traçar caminhos no alto. A neblina, cada vez mais densa, engrossava-se num depósito de pensamentos abstractos e de reincidências pecaminosas sobre as calçadas agora desertas. Enquanto os de cima alimentavam os olhos, com tamanha discorrência a socorrerem-se de um abstraccionismo arcaico, os outros cá em baixo, espalmavam-se abruptamente contra os muros.
Todos juntos faziam de conta que a neblina era simplesmente um vulto. Um vulto de passagem.
Estava agora mais próximo o meio-dia do sol. À volta deles, sentia-se cada vez mais a rotação uniforme, que os próprios não distinguiam. O sol encontrava-se já no ponto mais alto, onde os corpos se ajeitam para a iniciação de mais um culto. O caminho percorrido até aqui, tinha simplesmente ficado esquecido, tal como as sombras que se diluíam no betão cinzento. Agora no alto comando, onde o céu se propunha criar a divisória entre o bem o mal, distendia-se em abraços, o Sol, que, mergulhado no cais ordenava que todos se distribuíssem e se preparassem para o último culto ainda em vida.
Os olhos agora abandonados, por entre a neblina transparente, fecharam-se.
quinta-feira, 11 de junho de 2015
Falando em geometria no Sagrado
Todo o momento inspira numa ordem, levando-nos a percorrer caminhos novos. Neles, respira-se, contrariando a vontade do ar que se movimenta em torno dos nossos olhos. Mas, e se o ar rasurado por olhares indiscretos nos trocar as voltas e nos fizer andar em círculos? Muito do que aqui nasceu, convida-nos a diversas viagens. Nelas, damos de caras com um sem número de histórias feitas de momentos paridos no centro da terra. Basta, para isso que os nossos olhos percorram os intervalos do tempo, os mesmos que deram luz própria ao momento do nascimento dos corpos e das formas.
Imaginemos uma figura geométrica! Como é sabido, todas elas são compostas por vários pontos, que, unidos, farão nascer outros, e por aí adiante. Deixamos até de nos sentir uniformes, quando percorremos as linhas de uma dessas figuras. Pensemos então num círculo. Imaginemo-nos a percorrê-lo, tendo como ponto de partida um qualquer ponto desintegrado. Somos levados numa viagem sem princípio e sem fim. Se observarmos à nossa volta, a terra é composta por formas geométricas. Podemos entrar num mundo das formas, arquitecta-las sob um olhar carismático, e deixa-lo ir, ao encontro do recomeço até encontrar o final. Em algum ponto ele parará. Isso o demoverá de ser um foco a afundar-se num ponto qualquer da terra, para aí se reproduzir às escuras - o lugar onde o fazem rodar à volta de si mesmo.
Um lugar fragmentado no seu todo, é o que este espaço é, mas com muito de céu, de terra, de vida, de histórias de vidas, e muito também do Ser e do que nos move como se move o espírito. Fragmentos de um todo que nos toca, numa viagem sem princípio e sem fim. Dos seus fragmentos ainda vivos, podemos, ao pegar um a um, observar a olho nu sobre a origem que os fez fragmentos de uma história. Esta é uma viagem onde poderemos encontrar-nos nas várias histórias; umas vezes sofridas, outras vezes elevadas ao céu. Aqui a história não termina. O espaço é imenso a tender para o infinito.
Um ponto de paragem até à viagem seguinte, faz-nos pensar sobre a nossa descida ao ventre materno, e o que queremos semear para depois colhermos neste lugar sombrio mas granjeador do espaço que nos gerou e que nos faz andar em círculos. Aqui, estamos já corpo e Alma. Orientam-nos nesta viagem os cinco sentidos.
Entra-se agora num lugar composto por várias dessas figuras geométricas. Porém, só uma nos faz parar ao tentarmos formar o nosso próprio movimento. Olhemos em redor dos olhos. Fixemo-nos nas siglas esculpidas em cada pedra do Mosteiro que deu o nome de “Ermida” à aldeia. Sabe-se de uma ermida ser um templo ligado ao Cristianismo, e por norma, quase sempre localizado num lugar ermo e isolado. Talvez por via dos espaços se completarem, para se chegar mais facilmente a Deus. Ao ler os seus cinco sentidos admitindo então o normal movimento dos olhos, começamos por iniciar uma viagem no espaço. Quem não gostaria de poder apreciar dali, as diversas formas que a terra encerra à volta de si mesma? O princípio de um tudo, ou o final de um nada prestes a renascer, começa por nos conduzir nesta viagem ao encontro da humanização. Aqui, estão presentes os anseios da Alma, o Amor original, a divisão dos mundos; o material e o espiritual. A crença num Deus Maior faz-nos alcançar outras dimensões. Esta consciencialização do mundo é um fragmento no espaço, que pode muito bem ser o espaço percorrido por uma lágrima.
Nunca poderemos esquecer a imensidão da terra. A Mãe cuja poderosa energia, tudo cria. Daí que o olhar seja um amplexo forte de calor humano. Dos seus braços estendem-se raízes fortes que nos unem. Poderíamos até comparar as palavras que compõem os fragmentos unidos pelas siglas, numa gigante odisseia no espaço. Cada uma delas seria uma estrela. Escrever-se-ia uma enciclopédia poética. Cada poema seria um astro, cada capítulo, o movimento de intersecção que a terra dá à volta do sol. Entre um movimento e outro, os planetas respiram a nova ordem inscrita nesse mesmo espaço. E se acrescentarmos ao tempo, uma nova ordem de tempo, então, apresentar-se-á um caminho novo nesta viagem. Os sentimentos aqui presentes são uma constante de um desejo prestes a nascer da semente ainda a germinar no peito. Esta energia flui como um rio, estremece-nos tal um vulcão que faz tremer a terra. Continuando, a viagem apresenta-nos aqui e ali, um fio de tristeza, que de vez em quando, aflora, para logo de seguida nos levantar como quem diz: “Este fragmento perdeu-se dos outros. É a hora de o ajudar a encontrar os seus igu
ais”. Neste caminhar pelo espaço, o livro ganha asas, e voa. Voa ao encontro do amor que conhece, o qual lhe deu força para continuar.
Contudo, aqui em baixo as formas assumem-se invulgares até na perfeição. O céu é muitas vezes pouco céu e muita escuridão. Aquela ideia que temos do céu, quando olhamos para cima numa procura vã de algo que nos cure as feridas, desvanece-se quando enfrentamos um batalhão de estrelas cadentes e um sol escondido por entre os ecos das pedras. Sendo também um ser vivo, a pedra é uma forma distante do nosso sentir, quando afirmamos a alguém ter um “coração de pedra”, por sabermos da inexistência de sentimentos. Contudo, aqui, essa falta toca-nos com uma energia quente pelas mãos de Deus. Ele tem a capacidade de transformar e elevar até os sentimentos mais enraizados em pedra dura. O granito, por norma, uma norma a seguir neste compêndio. É nas terras altas, que as suas palavras nascem no meio das pedras, e nelas se desenvolvem, amaciando até a aridez granítica das serras.
Poderá dizer-se que o céu desceu à terra, e aqui, se conjugam todos os elementos criados num espaço etéreo. Aqui no colo materno, damos tudo o que temos e recebemos tudo o que temos direito. Experiências acumulados de uma vida a transpirar terra, mas com muito de tudo, e com pouco de muito. A dor, o sofrimento, a alegria, o amor físico, a partilha entre todos os que sofrem as mesmas penas num parto grandioso que é a vida a germinar por todos os cantos da terra.
Sabendo que a terra é um altar sagrado que nos recebeu, então a terra é um templo maior, onde Deus vive na invisibilidade dos seus traços etéreos para nos seguir os passos, através de descrições metafóricas de uma densidade atípica. Ouve-se agora um eco parido das pedras. Se por um lado, nos surgem corpos famintos de esperança a trabalhar a terra, ouvem-se gritos de dor, por outro, enquanto ela faz desses corpos, espíritos de luz a caminhar para o final do túnel onde os irá receber uma nova Luz.
É sempre por trilhos sonoros dos corpos e pela luz reflectida nos caminhos, que estes fragmentos respiram, homenageando as gentes que trabalham a terra e dela tiram o seu sustento. É este alimento que seduz a alma das gentes, e nelas se firma o desejo de unir todos os pontos de uma mesma figura geométrica – A Terra.
Enquanto o tempo passa e as horas se remetem ao silêncio dos ponteiros do relógio, um fio de luz queima os rostos de quem passa apressado e não encontra a porta entreaberta. As lágrimas perdem-se por entre os telhados das casas, enquanto à lareira se contam as mesmas histórias de outras vidas.
Prosseguindo, agora em espiral e sem princípio ou fim, entramos num novo espaço para mais uma viagem. Este é um novo caminho, com fé. A mesma fé enraizada, que o foi na terra arada. Semeou-se a última semente, sobre a qual, brotam os rebentos de um novo ponto no espaço. Continuando a percorrer a espiral do tempo, encontramo-nos agora sem tempo e sem espaço para continuar a viagem, porque é tempo de silenciar e meditar. Molde-se o barro e nasça o novo homem.
Ao chegarmos ao ponto central da nossa viagem, um outro far-nos-á partir, ou então serenar. Quando aqui chegarmos, poderemos então dar por completa a nossa viagem? Não! Não me parece. Poderemos continuar a folhear a nossa história, lê-la, senti-la, e sobretudo, fazer dela mais um sopro de vida que recomeça e se acaba para renascer de novo.
Passamos algum tempo existindo e persistindo, como se o mundo fosse uma composição a entrar nos nossos olhos, e as pessoas um mistério a irromper pelos nossos sentidos. Teorizamos a dor, a alegria, o Amor, a Luz, a Escuridão e por fim o movimento Espiritual do mundo. Teorizamos tudo como se a vida fosse uma composição aquosa, um bálsamo a inalar-nos, quando ressentidos.
Não passamos então de um teoria abstracta a querer chegar ao centro do maior centro do mundo.
Agora, persistindo na ideia do mundo das pessoas, existimos mas não persistimos numa existência fundamentada num crer sem tamanho, porque o mundo das formas também existe para dar cor e luz ao movimento intercalado de olhares cabisbaixos a roçar as pedras do caminho.
Cicatrizam-se as formas ausentes do mundo, que se completam em círculos fechados. Caminhantes, somos todos em caminhos vários, dando movimento ao mundo das formas. Geometricamente falando, somos todos Um, mas não sabemos todos, a ordem com que se inicia o movimento indicador de uma nova ordem – A Ordem do Movimento intercalado das formas.
Andamos em movimentos contrários mas trancados a tentar dar cor e luz à vontade de sermos somente um movimento nascente que cresce à vontade por dentro dos nossos olhos.
Quando se dá finalmente o encontro do céu com a terra, a vida é um renascimento constante de emoções. À flor da pele, nascem novos caminhos de luz, mas também novas viagens coladas à memória dos tempos vividos na aridez da serra. A energia feminina e a masculina numa dança celestial. A vida é dotada de calor humano, ao divagar por entre as várias histórias que a vida contém. Aqui a fé anda de braço dado com a dor, mas é ela a forma mais carismática de alcançar a própria fé com palavras mansas, de um coração elevado ao alto.
Dolores Marques
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