sexta-feira, 24 de março de 2017

Histórias

Fala-me do sentir, ser só um ponto onde se aloja um outro ponto, além do pensar existir.
Fala-me coisas, coisas do verdadeiro sentir nos olhos, a força do corpo, cuja energia é a dimensão do Universo.
Conta-me uma história de Amor.
Conta-me uma que me diga dos elos que unem os laços ainda a voar em céu aberto.
Conta-me uma história do tempo do nosso primeiro evento. Aquele cujo olhar se focava ao centro - ao nosso único centro.
Conta-me coisas. Rasga os verbos todos, como se a tua voz fosse um cometa na minha boca.
Fala-me da razão que existe, num sentir nada, além deste ajuizar as coisas num mimetismo ainda presente.
Falo-te do tempo, em que a simples razão sofria por se saber a pensar existir sem o propósito de amar, somente amar tudo nas dimensões todas da alma....
Conta-me de um ponto, não ser o final de um ponto existencial num livro ainda por escrever.
Conto-te da visão clara de um olhar xistoso, ainda ser um simples firmamento nas cores matizadas do deserto.
Digo-te de outras razões, onde o pensamento se agita, tal um vulcão a soprar lufadas de ar frio pelo nosso céu adentro.
Uma história simples, num só genérico, onde possa esculpir o pensamento. Este altar, onde suspenso o tempo das rezas, se deixa conduzir pelos corpos dos Santos, que nos elegeram já herdeiros dos seus mantos, bordados a ouro fino, sobre um cetim rosa e branco, das pétalas perdidas no jardim.

Caminha, lento, na suavidade de um tempo parado
Ouve os sons dispersos desse éden a florir-te por dentro
Senta-te no colo dos girassóis
Viaja nas asas das orquídeas
Imagina-me um pólen incolor numa tela ainda nua de sentimentos
Voa nas asas da libelinha, o maior voo sobre o rio

Não me esperes no teu corpo
Não me desejes na alquimia dos corpos
Não  me sintas, pele na tua pele
Não me ames como se eu fosse uma das faces da lua
Sente-te alma, como se a eternidade fosse um lugar nosso. O único onde sabemos de todas as razões que nos unem num universo ainda em construção

ONIX

https://www.youtube.com/watch?v=3f3KhR5oDC4

quinta-feira, 23 de março de 2017

À volta da Luz

Quando a porta range eu sinto frio
Frio...e medo
Medo de quem nela bate
Medo de quem ali sofre
Medo de quem dela se apega, por não saber quem mora cá dentro

Medo do próprio medo, de não saber quem bate à porta
Medo dos meus ais, estes inseguros batimentos cardíacos
Medo do sonho se perder por entre as suas frestas

Medo de me surpreender no sono, ao acordar, e ver que não havia porta alguma no meu sonho

O medo é um relâmpago nos meus olhos, agora abertos
E sinto um sol furibundo por dentro do meu medo

O sonho no meu caminho
A porta que não é porta
A loucura do sono, somente um silêncio a escrever-se no fundo dos meus olhos

Esconjuro este espaço
Renego este tempo
Grito por fim, por mim adentro, e nem um sufoco me salta fora do peito.

É o medo…
Este sentido invertido, simplesmente um caminho:
fora às portas
fora às janelas

Fora…fora tudo dos olhos

São as orações, os credos desenhados no crucifixo
o corpo de Cristo, o sangue de Cristo,
o Cálice por ora vazio.

É a sede
É a fome
É a miséria à volta da Luz

É o rio
É o mar
É o horizonte
É a cidade toda fechada no meu corpo

E a porta, que não era porta
Range de novo agora o sobrado
São uns passos
São uns prenúncios de alguma coisa suspensa no tecto
São suspiros e gritos do lado de fora
São melodias, todos os sons do lado de dentro da porta que não é porta


ÔNIX

" Amor Primeiro" - ONIX

terça-feira, 21 de março de 2017

Que tudo retorne

Que tudo retorne como se fosse um vento
na sua trajetória
sem um princípio 
sem um fim

Que nunca sejamos vencidos pelo nosso próprio tempo
que nos caminhos traçados
não há pegadas
não há destinos fechados
não há marcos a separar-nos
não há divisões


Nos confessionários
em nós e por nós todos
nos cimos e nos baixos 
 onde somos nada mais
que um sonho ainda perdido no espaço
sombrio da memória
não há confissões

Que nem na divisão dos mundos
os nossos olhos deixem de ser visionários
que nossos corpos não se submetam à humilhação
de um mundo que circunda os caminhos da ilusão

Que nossas vozes nunca se calem
face à degradação
à escoriação,
à desumanização
à desconstrução

Que tudo seja um recomeço, nunca um retrocesso
nunca uma multidão sem voz, numa gruta fechada
que nunca se nos derretam os gelos por dentro
que nunca o fogo se permita arder nos fundos 
onde se erguem as sombras

Que tudo retorne no nosso ainda tempo
nas noites, nos dias
no único grito de revolta
cá dentro 

Pode ser num tempo vazio
num espaço fechado
num lamento escondido
na força de um vento que arraste tudo
até ao ponto
de nos esquecermos 
por morte 
ou má sorte, nos caminhos

Mas que tudo retorne ainda num tempo nosso!

ÔNIX /Dolores Marques

quarta-feira, 15 de março de 2017

Apeteces-me

Apeteces-me na loucura de um abraço. 
O lugar onde as almas se fundem, ainda que manipulado o sentido, quando se lhes altera a rota dos ventos. O lugar onde se é povo porque se nasceu povo, num pedaço de chão virgem, pisado e recalcado, mas ainda assim, um lugar fértil onde criámos raízes fundas.


Apeteces-me na divindade que chega com a neblina.
O tempo dos orvalhos que descem como se fossem as lágrimas de Deus, a escorrer-nos pelos cabelos. Nem sempre as névoas trazem as dores do parto dos céus. A alma cheia, dispensa a veleidade dos déspotas, que dela se apossam como abutres a furar o nevoeiro. 
Sempre te vislumbrei nas sombras, e porque não no corpo húmido do nevoeiro? Ali somos etéreos até às pontas dos dedos. Esse manto que nos afaga a alma, quando pensamos em desistir da vida. Esse quase lamento que se afunda no rio, quase sem se dar por isso. 

Apeteces-me na dança das rajadas do vento que vêm de cima.
Há dias que são ventanias a varrerem os sonhos. Que se juntem os meus e os teus, para que possamos ser um único tema na noite: - A noite é o ventre onde nasce o Poema. 
Espero esse manto negro que chega das entranhas do corpo da noite, com a ansiedade habitual, como te anseio no meu corpo. Quando não sei como chamar pelo Amor, escrevo: - Amo-te.


Apeteces-me no meu corpo, quando me deito.
Às vezes o Amor dissipa-se por entre os espaços da palavra, e, então, soletro-te:
- A M O R ? 
Quase sempre este modo de amar, sendo um Verso que nasce do Verbo, provoca o parto de um sentimento ainda em embrião. Depois nasce um novo Amor.
Talvez me seja indiferente, por não saber onde acomodar-te no meu peito. Às vezes insisto para que me sejas, simplesmente um olhar. Um olhar demorado nos meus olhos.


Apeteces-me como se fosses sempre um aroma primaveril
Um gosto à minha medida. Visto-o como se fosse sempre Primavera, com leves e suaves texturas pelo corpo acima, até ao seu mais inquietante segredo, nos cómodos dos olhos. Vesti-o como um vestido comprido, e no seu todo, vaporoso. Porque não quero pensar nem exasperar pelos lugares ao sol, porque lá não há disso. Por lá espelha-se a vida...acho. Voltei a almoçar no jardim, uma salada de grão, com atum e tomate, azeitonas e ervas aromáticas. Havia por lá os pássaros que me pareciam ter fome. Mas não lhe dei da minha comida, para não ficar eu com a minha, e a fome deles.


 Apeteces-me no burburinho das águas
Por ali havia as sombras das palmeiras espelhadas no chão. Havia riachos que espelhavam nas suas águas um céu desconhecido na cidade. Havias Tu, desenhado pelos meus olhos num desses momentos das sombras. Caminhei ao teu lado. Tirei-te uma fotografia. Deixaste, porque enquanto sombras, eu tu, fomos tudo num jardim onde o céu nos afiançou sermos unos, perante a aliança ali desenhada, pelo suave deslizar da pequena corrente de água.
Corria agora pelo jardim afora.

ÔNIX/DM

segunda-feira, 13 de março de 2017