quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Vamos embora


Não caminhem atrás de mim, mas admitam um caminhar lado a lado.
Não me dêem a mão, mas os sentimentos com os quais escrevem a palavra AMOR.
Não me sigam. Abracem antes a fonte de energia que nos liga.
Que não se admitam silêncios rasgados pelo vento, que o vento caminha solto com assobios desnorteados.
Que não se desista de pensar, quando o vento corta o pensamento em bocados.
Que não se desista de Ser, quando o querer for demasiado e o Crer beatificado.
Mas ainda assim que não se desista de orar.
Queimem-se todos os incensos.
Meditemos na construção de um novo Templo.
E, vamos, vamos embora.

ÔNIX

Preciso de Ti

Preciso de Ti
Preciso de Ti, são, nu e liberto das correntes do passado
Preciso que saibas agora quem Eu Sou
Preciso de Ti, firme na vontade de me seres por dentro
Preciso que me ouças num grito sufocado
Preciso de Ti, fogo e água
Preciso que vejas nos meus olhos, o tempo que passei a ser chama acesa, e mar e rio por ti
Preciso de Ti, terra e ar
Preciso que te afundes na minha boca, e sejas um sopro quente nas raízes ainda tenras do meu corpo.
Preciso de Ti, cingido em mim na força que só um abraço contém
Preciso que sintas o quanto de céu envolve o meu baixo-ventre
Preciso de Ti, junto ao Portal ainda fechado
Preciso que saibas quanto de réstia de tempo ainda possuo para subir por ti acima
Preciso de Ti, como se fosses o meu único céu
Preciso que saibas do meu olhar sobre o último voo arquitetado nos desígnios de Deus

ÔNIX

Nós



Irás acontecer! Saberás como, e porque sempre nos encontramos na vida. 
Um dia saberás como amar uma parte do Todo, que ainda nos falta a Nós.

ÔNIX

Não sei que dor é esta


Cruzei-me com o mar, o rio e o vento
Neste ermo e outra encruzilhada
Se me dei tanto e fui o seu alento 
Na hora certa me foram só um nada

Não sei que dor é esta que sustento
Se na dor não sinto um nada sufocada
Não sei se o amor quer ser o meu alento
Ou se foi já minha alma em debandada

Sempre fui cedo e sem demora
Dizer-me em todas as muralhas
Mas tarde sou somente agora

Mulher em todas as jornadas
Plebeia em todos os caminhos
Um ser que sente todas as nortadas

(Dolores Marques – 2012)
Foto no Rio Tejo - Zona Oriental de Lisboa.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Voo

Batiam desnorteadas as asas da borboleta nocturna.  A luz do candeeiro, inerte insistia na direcção do bater de asas arremessado contra o alcatrão. Tentei com as pontas dos dedos sentir-lhe algum movimento para que voltasse a voar, como há pouco. Nada se comovia perante o arrefecimento do voo.
Fechei os olhos à luz. Forcei aquele vidro fosco a quebrar-se. Mas, só um clarão preenchia o fundo negro dos meus olhos. Ampliava-se na sua trajectória - um círculo vicioso em rodopios coloridos até se desvanecer por completo. Tentei que tudo voltasse, para me concentrar no momento anteriormente liberto. Abri os olhos. Procurei de novo a borboleta. Tinha-se libertado finalmente das amarras da luz. Voou para sítio incerto.

Foi talvez em direcção ao seu reencontro. Um dos reencontros finais.  Tinha-se libertado do emaranhado de folhas, onde ainda sobrevivem algumas flores amarelas. Tinha-as beijado  repetidamente. Elas,  imóveis aceitavam o toque suave das suas asas.

Continuei ali naquela rua como se tudo fosse real. E tudo me parecia assim, uma verdade  perversa onde todos pensam que vivem livremente em qualquer lugar da noite. Enquanto a borboleta voava, nada me indicava um lugar onde também eu pudesse fazer parte daquele cenário onde o irreal se funde com o real. Era só eu e as alturas de um céu que se escondera até da própria noite.

Enquanto isso, observava os aviões tinham por ali traçado a sua meta. Sabia-o pelas luzes ténues que alternavam com aquele monstro  em que se transformara o azul  indigo. Como desenhar tal figura na noite, ainda que seja sob o céu azul? Tudo me parecia um momento ficcionado nas asas negras da borboleta nocturna. Até as flores amarelas do canteiro se entregaram ao chamamento  dos remoinhos criados pela brisa na folhagem verde.

Tudo desaparecera como se tivesse adormecido e sonhado com um cenário sobreposto à vontade de voar, para não mais voltar a ser corpo, mas alma nascida no centro de uma flor amarela. Foi então que voltei atrás no tempo e recordei um voo parecido com aquele primeiro em que a borboleta embateu no chão.  Vi claramente uma nuvem branca a envolver-me toda, vinda não sei de onde. O toque dessa montanha branca era suave mas imenso, tal pétala de uma flor que chama por nós.

Onde começa a realidade, quando tudo me parecia ficcionado naquele lugar por cima da ponte onde fui colhida pela viatura? Onde estava,  para me fazer ver, não a minha realidade, mas outra em qualquer ponto a existir naquele lugar?

Lembro dos paramédicos, enfermeiros, amigos e conhecidos que conhecem o local, dizerem não acreditar….sem um arranhão? Sem nada que me impedisse de fazer a minha  vida normal. Um deles disse-me que um atropelamento naquele lugar seria levado o corpo directamente para a morgue.

São directos, com uma realidade absurda? Não creio: Quero crer que são a realidade em acção. Eu, fui um momento ficcionado…talvez. Mas aqui estou, depois de uma terceira vez em que estive às portas da morte. Nem sempre se abrem. Só quando se está pronto para seguir viagem, ao entrar-se por ali dentro e iniciar-se o voo.

Tudo é real? Onde começa a realidade e termina a ficção, ou onde estamos todos neste cenário contraditório em vários sentidos obrigatórios.Só existe um sentido obrigatório. O AMOR, esse sentimento que nos parece tão distante umas vezes, e outras tão perto como se fosse só um veio carregado de dor. Ou porque amamos, ou porque não sabemos como amar e responder a esse chamamento.

Mas, isso é real? Ou fará  parte de uma ficção onde não nos sabemos, por não termos asas para voar?

Foi só uma paragem numa rua, a minha rua, onde voo muitas vezes para lugares fundos…
Sei lá porque se inventam histórias e personagens ainda que reais. Tudo em mim é a realidade vivida, sentida e desenvolvida num cenário emocional, onde possa criar nova vida através do real, mesmo que muito conteúdo seja ficcionado. Tudo tem que ser real.

ÔNIX