segunda-feira, 21 de março de 2016

Sonhos meus e teus

Ali, onde só os falcões dominam
A parte mais densa do céu
Onde nem o voo incauto das águias
Ousa saber o caminho do céu

Ali onde só as vozes roucas dos corvos
Anunciam o lusco-fusco nos meus olhos

Ali, onde o meu corpo se aquietou
No desmaiar da imensa conjuntura celestial
Quando no primórdio da noite
O início de Deus ali se anunciou
Naquele lugar primeiro e último
Onde só o tempo ceifa o Pão d’Oiro

(D’Oiro é o tempo a nascer nas eiras)

Ali, onde os meus olhos descansam
Ainda num fundo, tão fundo da noite
À luz de um pano de fundo azul
Onde ensaiam ainda a última coreografia
As pétalas lilases

Ali no tempo dos invernos longos pelos campos
Nasce a derradeira verdade de um sonho
Que a primavera amainou
Quando o verão dele se cansou

Ali, é e sempre será o meu céu
Onde os corvos já não têm voz
E os falcões se perdem na imensa catedral
Do voo da maior águia que ali nasceu
Onde guardados estão os sonhos meus e teus

ÔNIX

segunda-feira, 14 de março de 2016

Memórias

Pudera ter as memórias todas juntas
e saber-te ali um poema
que te pudesse ler nas entrelinhas do tempo
quando caísse sobre mim, somente um verso
que te permitisses num único ponto
onde se desnuda a poesia

Quisera beber na fonte de todas as vontades
onde o Verbo é nascente e verdade em nós
quando naturalmente somos um no outro

ÔNIX

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Geometria dos corpos


Exigimos mais tempo para comemorar todos os abraços, mais espaço para se alongarem os caminhos, mais tempo para as despedidas, enquanto os olhos se escondem debaixo de uma capa, de onde nem sempre se escapa. Nem mesmo os que se dão ao trabalho de se despedirem sem nada exigirem. 

E ela ali está sempre poderosa e amorosa, tal como a desejamos e que dá pelo nome de felicidade. Fazemos desse sentimento prazeroso o nosso aconchego. Tanto o é, que quando nos sentimos felizes vemos o mundo ao contrário, ou seja, vemo-lo do modo que ele é e/ou deveria ser, se não o transformássemos num poço de lágrimas. Lançamo-nos em rebeldias forasteiras com passos em falso para o verdadeiro caminho. E então caímos na desgraça, na desordem, em movimentos simultâneos aos nossos corpos, sempre e remar contra marés desorientadas. Mas o tempo, no seu movimento constante, segue, e não nos pode guiar neste nosso trajecto pessoal. Esta aventura existencial.

Não se entende porque a cada vez que nos é aberta a porta para nos integrarmos nesse mundo circunstancial, mas divinamente construído, não sabemos se a porta se abriu por vontade própria, ou se a forçamos, como quem se esforça para chorar, e sem o conseguir força o desembocar de uma lágrima perdida no tempo, o tempo onde reina ainda a infelicidade.
A felicidade é o caminho, dizem e “o essencial é invisível aos olhos”, como se todos fossemos o todo num principado sem ordenamentos, mas com verdades de um mundo novo onde o essencial é o único a enfrentar o tempo.

Mas, gastamos tanto do nosso tempo a avaliar as causas dos nossos corpos inertes, sem saber dos efeitos secundários do próprio medo de ser feliz. Castrador esse ponto onde nos encontramos, para depois nos perdermos em vários segmentos de uma recta, que nada mais é do que uma linha que seguramos nas pontas dos dedos. Construa-se uma pirâmide, e retire-se dali, duas das suas arestas para dois pêndulos. A energia agora edificada, é contrária à energia que nos move a todos, aquela que ainda se sente em círculos debilitados como moeda de troca. Configuramo-nos por força das circunstâncias para essa mesma energia. Entramos numa espécie de amnésia que nos faz contrariar todos os movimentos ainda vivos. Este é o mundo da desorientada frota num imenso oceano por desbravar. A força magnética dos corpos, perpendicular à força energética que pesa agora mais para um lado. Em movimentos frenéticos nos deixamos levar. Entramos num profundo estado de meditação em dois movimentos a rodar em sentidos opostos.

Mas ela ali está sempre colada a nós. Basta para isso, imaginarmos o nosso corpo como um balançar frequente entre ruídos de um choro intenso. Configuremos então os braços para os dois pratos. Coloquem-se as palmas das mãos viradas para o céu. Imaginemos esse céu como sendo um círculo dividido em dois. Coloquemos ali os olhos.

O que se solta desse conjunto geométrico de círculos, semicírculos, linhas rectas e perpendiculares à pirâmide edificada no nosso corpo, será talvez o que pesa para a decisão final da vida. A imensidão de um sistema egocêntrico e descuidado dos valores que assumidamente se alteram, em virtude dos nossos gestos e por conseguinte das nossas necessidades. Ao seguirmos caminhos contrários, a antevisão do mundo real é uma incógnita, porquanto vivermos uma realidade que se destina a contrariar o que é, passo a passo. Realidade vs irrealidade, dividida entre as nossas mãos, agora estendidas numa versão assimétrica ao corpo da balança.

Se olharmos bem para elas e se contabilizarmos os que os nossos olhos ali depositaram, constataremos a sua verdadeira oposição. Os opostos medidos por gestos que se fundem nos olhos fechados. Neste caso tudo o que ali depositamos naquela mão agora descaída, foi o essencial mundo dos opostos, onde a felicidade espera para ganhar corpo. Nunca ela se constituirá desta forma, inadvertidamente disposta a ser somente um caminho, enquanto mantivermos esta forma desnudada mas inerte na imensa conjetura de uma pirâmide. Contabilizando tudo, veremos que rejeitamos o essencial, o que nos pode trazer a felicidade e juntamos o que nos traz infelicidade. Depois restam ainda as lágrimas que empurram a pálpebras e se soltam como rios sedentos de histórias ainda vivas e por viver, nessa correnteza enganadora que nunca vai dar à foz. Perdem-se por labirintos sem entradas e sem saídas, navega sem mastros por mares nunca navegados.

E, nesta viagem, somos somente um rio que se perde pelas fronteiras de um mundo em plena euforia que ainda corre nos nossos olhos. O corpo fundiu-se na corrente. Deixá-lo seguir o seu rumo e esperar até que o céu se abra de novo, e nos permita novas geometrias dos corpos.

Dolores Marques (ÔNIX)

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Óbvio até ao tutano




Sabem, esta época que se diz ser a época natalícia, larga em mim uma espécie de vertigem diferente da habitual. Este vício em dissecar com as palavras alguns géneros estranhos de vertigens em mim, é já um hábito. Contornar o óbvio, nunca foi uma coisa que me desse prazer, por isso mesmo, por ser tão óbvio, não aceita qualquer tipo de vertigem, porque o óbvio por si só, nem vertigem chega a ser uma palavra que se possa determinar pelo seu género, fêmea ou macho. Faz-me pensar no ar dissimulado daqueles seres angelicais, mas que viram verdadeiros animais, alguns até demónios em três tempos diferentes: o passado, o presente e o futuro, mas sempre com vertigens secundárias a fervilharem nas partes baixas, porque a serem anjos de verdade, não poderiam gozar dessa amplitude dos corpos.

Escrever para mim, já é uma vertigem de há muito, mas daquelas onde o óbvio não tem lugar. Escrever já se tornou num vício estranho que me leva por lugares onde a imaginação chega a doer, quando se encontra com esse óbvio tão eloquente em terras de ninguém, o lugar onde cria raízes estranhas nos corpos celestes, que do alto chegam sempre com as cores do pai natal a rasgar os céus. 

“Efectivamente, mas sem moralizar”, seria uma forma de dissecar esse óbvio impregnado na pele de muitas libertinagens acusadas de ousar enfrentar o óbvio, e depois são só, e só isso mesmo…obviamente o óbvio. Escrever para mim, chega a ser a catarse dos movimentos oculares, dos sentidos todos, os funcionais e até os que diferem de organismos disfuncionais. Como eu adoro estas disfunções a escorregar pelos meus dedos, quando já se masturbaram no meu corpo todo. O gozo é a duplicar, a triplicar e às vezes só mesmo uma tábua de logaritmos para dissecar todas estas mais valias impregnadas no mais fundo que há em mim.

Dissecar o óbvio, é quase como apalpar o ar, e não encontrar ali, no mínimo, uma partícula desse mesmo organismo, ainda vivo em tantos corpos estranhos e não estranhos. Abandonar esses movimentos pode ser perigoso, por causa das movimentações do ar, onde ele se entranhou. Por isso, o melhor a fazer é entender o porquê de tanta objectividade num organismo que só vive à custa de doenças esquizofrénicas de um foro quiçá não psicológico, mas lógico nesse antro abominável do ser. É que pelo que pesquisei, nem a ciência consegue determinar onde tem origem, tamanho vicio a escorrer pelas vertigens de um sem número de viajantes dos corpos nus.

Em jeito de se lembrarem também de uma condição feminina, onde nasceram para dar luz ao mundo e se calarem as sombras onde as colocaram durante toda a sua existência, anda agora esse género fêmea revestida do óbvio. Perdida, inanimada, sem saber quem é, de onde veio ou para onde vai. Múmia, estátua, ou simplesmente corpo ensandecido numa batalha sem tréguas. E ele…ele o sexo forte, o óbvio propriamente dito, vê agora o seu corpo, despojado da forma com os ossos mordidos à flor da pele, e carne com carne, vai-se deixando consumir, bem devagar, como qualquer cabaz de Natal. Sim, porque o género feminino ganha sempre, pela sua aguçada intuição, e às vezes maldição por fazer disso um jogo multifacetado.

Transformado agora em Pai Natal de chocolate, vai ficando sem força para se reconstituir de novo até à próxima investida do género fêmea. E esta, que tem intrínseco o seu jeito inato de tudo saber e tudo conseguir, prepara-se para deitar por terra, toda aquela força bruta que sempre a subestimou e a enjeitou na arena dos amaldiçoados. Nada a fazer. Até agora, o óbvio tem desempenhado o papel principal nesta peça.

Insistindo no jeito de se vender a alma ou o que resta dela, assim se vai construindo, momento a momento, o intelecto, porém masturbado num ponto abaixo do mediatismo que conduz à escolha do género.
Dá-se então início a uma forma bem natural de manipulação. Aí vale tudo e nada há a perder. Os opostos a tocarem-se, a medirem forças para se saber qual o mais hábil, o mais belo, o mais esbelto, o mais carismático poder de todos os tempos, vindo de um lugar que nem eles conhecem. Só sabem que lhes está impregnado na pele. Tatuado... assim este se deixa molestar, e óbvio agora até ao tutano.

Sugam-se uns e outros num gotejar inanimado, e os corpos dispostos a tudo nesse que é um cenário contraditório à própria luz que imanam de si e por si. 
Caem agora as últimas gotas de suor que ainda lhes restavam nos corpos.

Dolores Marques

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Sem fim


Há noites de insónias, noites e muros frios por entre os olhos
Há histórias passadas...ecos com sonhos guardados e viagens paralelas
Lembrar é voltar…voltar ao tempo dos muros frios e sombrios por entre os olhos.
Pensar é cair…sacudir os ombros…e andar...voltar a cair
Simplesmente andar sem parar...e cair...voltar e cair
Olhar de longe a imagem de um sonho prestes a terminar
A casa…a casa sem estrutura, toda de branco, suspensa no tempo
As portas e as janelas não tinham fim
Tudo era branco, tudo no fim daquela rua era a neblina e a casa…
A casa entrava por ali com o homem também vestido de branco
Mas a rua era imensa…medonho aquele lugar escuro e sombrio
E ela caminhava solitária sem saber para onde
Simplesmente caminhava em direcção ao sonho
E ele... o homem olhava-a de cima do seu semblante branco
Todo ele era branco, o cabelo, os olhos, o traje arrastava-se lento
Os pés descalços, imaculados
E ela descalça na rua escura, caminhava só pela rua escura, sem fim
Sem um único fim à vista
Ele olhava....insistia em olhá-la de cima do seu semblante daquela varanda com recortes brancos a iluminarem-lhe os passos.
Ela caminhava e olhava, simplesmente olhava para cima
Só havia a rua escura, a neblina e o céu….
Só o céu se sobrepunha ao cenário onde se construíra a casa toda de branco
E o homem….
O homem a olha-la de cima como se todo ele fosse a luz...e ela...
Ela lá continuava pela sua rua escura, sem fim,
Sem um único fim

Dolores Marques (ÔNIX)


sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Mensagens do tempo


Sempre que me faço estátua
Nas tuas mãos
Sôfrega de um olhar atento
Lês-me imagens fidedignas
De um sonho distante
Mas presente nas mãos calejadas
De quem sofre por medo
Do tempo

É este vento
A cortar-me o ar que respiro
A dizer-me de um sítio
Onde encontrar
A rosa dos ventos

Calada
Inerte
Sem norte
Nascente
Ou poente

Jaz num pedaço de papel
Que me escreveste
Enquanto eu dormia
Sem me agasalhar
Deste frio desnorte

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Universo das Relações Humanas


Assisti em tempos a uma palestra, onde se abordavam assuntos, cuja temática pressupunha a discussão sobre as relações humanas. Às tantas, e porque não se tratava de um grupo coeso, instalou-se a polémica, uma vez que nem as duas mulheres e nem os dois homens que formavam a mesa, assim como os participantes onde eu me incluía, se entendiam. Quase sempre, a última palavra era a dos homens, caso não se colocasse uma ordem naquela desordem ali plantada.
Mas, como ia dizendo, o mote que nos havia ali puxado a todos era de uma importância ainda credível, isto para quem se preocupa ainda com estas coisas – as relações humanas. Devido à imensa confusão instalada na sala, o objectivo com que firmemente se tinha iniciado, deixou-se abater em cima da mesa, mesmo ali, defronte daqueles que tinham dado uma certa importância à coisa. Os tais dois homens e as duas mulheres.
Alguns participantes, dos dois géneros, já tinham abandonado a sala, porque as suas ideias até já tinham sido debatidas, porém, desprezadas por uma maioria ainda considerável. Mas, apesar disso, a minoria que ainda ali se reorganizava, apesar de ter engolido uma série de conceitos, por conta de uma outra teoria sem pés e cabeça, chegou-se à frente, aniquilando a importância que todos tinham dado à coisa, ainda antes de entrarem na sala.
Misturaram-se todos, e continuaram a fazer valer as suas opiniões, dentro dos parâmetros considerados normais, ao bom funcionamento da sequência da ordem de trabalhos, da Palestra agora reduzida a pouco mais do que uma conversa de café. A mesa de honra, antes ocupada pelos oradores, tinha dado lugar a um ou outro par de pernas do género fêmea, que excluíam logo à partida qualquer discussão séria que ali se quisesse impor.
Por fim, e porque tinham mesmo que dar a palestra por terminada, para se escrever sobre o ali discutido, tiveram que colocar a discussão à votação:
Tratava-se então de se saber, como, e em que condições normais de coabitação, alguém, se limitava simplesmente a Ser Pessoa, sem qualquer ordem imposta pelo parceiro. Tinha-se dado início à abordagem mais carismática dentro do universo das relações humanas - a relação entre o casal.

Posto isto, deixou logo de ser importante tratar-se de um casal, homo…, bi…, hetero…, ou transsexual. E, também, porque dentro das relações humanas ali discutidas, já se tinham engolido e até cuspido todas as outras, restando, sobretudo, a relação que é mais do que tudo, e que todos dizem apelidar-se de Amor.
- Balelas é o que é! - Diziam duas mulheres sentadas agora no chão.
- Bolas, mas então o que leva duas pessoas a relacionarem-se, a dormirem juntas, a acordarem juntas, a zangaram-se juntas, enfim, o que é? - Insistia outra que não tinha saído ainda do mesmo lugar que ocupara no início.

Um dos dois oradores do género masculino, que até ali, ocupara na mesa, o seu devido lugar, tinha já como objectivo uma das questões agora ali levantadas. As pernas longas e bem trajadas da mulher que entretanto se sentara em cima da mesa. Este decidira-se então, pelo ali cruzamento das pernas, cujas meias de liga se assumiam, um tanto desprotegidas.
A Mulher que ocupava ainda o mesmo lugar levanta-se e abandona a sala. Acho que o fez, por ter chegado à conclusão, que ali não se aprendia nada que a fizesse perder mais tempo.
Ficou então a sala mais composta, com as restantes mulheres, tal como o que restou dos homens, a tentarem cada qual ganhar poder, e por isso, - a Discussão. Insistiam uns de um lado e os outros do outro, até que, às páginas tantas, uma das mulheres, decidiu contar ali a sua experiência de 20 anos de casamento.
Focou-se na paixão, no carinho, no amor que nutriam um pelo outro, e no sexo. Foram todos unânimes em dizer, que a qualidade do sexo é que faz com que uma relação seja eterna. Depois, alguém decide irromper por aquela discussão assoberbada, e afirmar que a luta pelo poder existente nas relações humanas, é exactamente igual às lutas de poder que se conhecem. A cada dia que passa, medem-se forças, tendo em vistas, um clímax estranho. Opina ele, opina ela, opinamos todos. Aliás, todos queremos colocar um ponto final na nossa história e na do outro.
Porém, só quem for veementemente castigado por todos os géneros de manipulação, sabe como se dão estes encontros, onde o poder quase sempre se assume único na forma, por ser detentor de uma película inviolável, onde o prazer se contém, como se de um espermatozoide se tratasse.
Falou-se depois nas circunstâncias que levaram o homem à condição de animal racional, limitando os outros a uma condição miserável de sustentabilidade, pelo que nos é dado conhecer, quando os comemos, como se fossemos todos uma comandita a criar um movimento antropofágico aleatório.
Como se o nosso poder pudesse advir das suas partes baixas, e até excluíssemos também do chão os membros inferiores. Criar-se-ia assim, uma nova espécie de seres, mais ousados, e habilitados a sobrevoar os céus. Passaríamos então à condição de seres angelicais, por sobre as camadas de seres existenciais que ainda habitam a terra.
Falava-se ainda sobre os porquês de se terem afastado daquela condição miserável e rastejante, quando se colocaram na posição erecta. Outros diziam, ser também por conta de um sentimento, que Deus semeara nos seus corpos, para que fosse mais fácil, separar o trigo do joio. Contraponto a isto havia quem dissesse, que tinham surgido novas teorias mais humanistas, que só a oração que bailava por entre os lábios os diferenciava dos outros animais.
Uma delas, enquanto assistente, porém cega, surda e muda, sentia tudo isto como se fosse uma verdade inconsequente. Ouvia agora as vozes mais nítidas, que rompiam o véu ali costurado à volta dos seus olhos. Sentia um fogo quente nas mãos, uma chama a arder-lhe no peito. Estaria por certo a sentir alguma forma de Amor, ou seria só um desejo do corpo a pedir comida, enquanto a fome se intrusava, por entre as pernas de uma agora, loba.
Pensem bem antes de a olharem nos olhos. Ali estão guardadas todas as lutas, assim como todas as conquistas. E, quando por via de furar a noite, ao se colocar na verticalidade dos gestos, a mulher submissa, mais baixa do que o homem, naturalmente, que mais parece rastejar em rezas obtusas, nem sempre se cinge à dor, para querer ser a melhor, antes crer no seu SER MULHER.
Tomem agora nota dos traços com que desenha no ar a sua silhueta, porque por quantas dúvidas existirem, a Mulher ainda é detentora de uma discussão acesa. A Mulher, apesar de tudo, é sempre a “vencedora”. Sabe como entrar, e o porquê de sair ou permanecer numa relação humana.
Quase sempre é por AMOR.


Dolores Marques