sexta-feira, 5 de junho de 2015

E nós com sede de mais um Agosto


Só porque não nos temos, caminho agora em passos soltos, divagando, na tentativa de encontrar o fio condutor da nossa história. Sei que foste, como se foi tudo o que plantaste no meu corpo, mas sei uma verdade nossa que floriu e deixou pétalas rosáceas nas palmas das minhas mãos.

Lembras quando tudo era branco, e eu lancei as rosas ao vento, para que também ele fizesse crescer nos jardins os lírios roxos?
Lembras quando na serra, floriam rosmaninhos, e nós com a sede de mais um agosto, secámos todas as flores silvestres?
Lembras quando nas nascentes de águas cristalinas, saciávamos a nossa sede e crescia no meu ventre a vontade de sermos corpos envoltos em pura seda de águas mornas?
Lembro de tudo, como se fosse ainda hoje o tempo, em que juntos demos início à história que fez correr mundo e fez calar o vento, quando já nada trazia de novo para nós.
Foi aí, lembras? Foi aí que tudo terminou, para dar início ao que, sentindo ainda, te traz um dia de cada vez para mim.
Sabes que nasceram novos lírios roxos e com eles novas cores primaveris?


Leia mais: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=247471 © Luso-Poemas

quarta-feira, 3 de junho de 2015

No Pomar

No pomar ergueu-se a árvore maior
de um fruto que gerava por entre as folhas
um movimento celestial

E assim cresceu a árvore no pomar
e o fruto na árvore dele
que sem se abstrair 
do seu movimento
foi seguindo até à raiz 
onde se encontrou
e se enraizou 
para mais um encontro 
de raízes
e folhas
e frutos
e seiva no pomar 



Foto e poema: Dolores Marques

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Café da Manhã


Gosto de ver um sorriso logo pela manhã. Para isso, alinho a cabelo em frente ao espelho e logo de seguida fixo o olhar num ponto iluminado. Posto isto, ele devolve-me em primeira mão o sorriso ali sufocado. Tinha-se tratado de ser um desejo seu, o último antes de me adentrar nos subúrbios da noite.

Mal entro na pastelaria habitual para um café, apercebo-me que ando há alguns anos a pisar o mesmo chão, como se fosse uma penitência, sei lá, ou qualquer outra obrigação, que se distingue agora nítida, enquanto com a colher dou umas voltas à chávena e tento arrefecer a bebida energética antes de a levar à boca. Dizem do café provocar uma certa euforia matinal e que se estende pelo dia fora. 

Já me dei conta de que observo todas as pessoas encostadas ao balcão, enquanto bebem sofregamente uma meia de leite, ou tal como eu, um café. Ninguém fala, ninguém sorri. Limitam-se àquele momento silencioso, como se a noite ainda estivesse presente em cada pensamento. Engolem de tal forma aquele líquido matinal, que por vezes me parece já um antídoto contra as forças do mal, que poderão estar por detrás de um dia só. 

Forçada a seguir caminho, vou ao encontro de alguma força que me seja doada por mais um sorriso, porque alguns ficaram afogados em meia dúzia de chávenas, agora vazias e amontoadas na minúscula máquina de lavar louça da pastelaria habitual para um café.

Amolador

Gosto de todos os dias, porque todos os dias são coloridos, não desfazendo das noites que sempre me despertam outras caminhadas mais silenciosas.
Não é que não goste de ruídos, porque até gosto de alguns. Por exemplo, estar o dia todo a ouvir os sons provocados pelo escorregar por entre uma lona grossa, dos vários detritos de umas obras ali no edifício em frente, é qualquer coisa de sedutor, porque me leva até à janela de vez em quando.

Até já me precipitei para ela algumas vezes quando ouvia o som do amolador, que de sisudo, hoje não tem mesmo nada. Não parava de andar de um lado ao outro com a gaita na boca e o seu carrinho cheio de tralhas, que mais pareciam peças de arte antiga a captar o interesse dos turistas que se passeavam de cabelo ao léu nos novos autocarros turísticos.

Este lado da cidade é assim um misto de várias sensações, que me fazem recuar ao tempo em que os velhos chapéus-de-chuva, as facas e tesouras e até outros objectos, se mortificavam de tanto tremerem junto às mãos do amolador. Fiquei a pensar…isto porque os ruídos despertam alguns pensamentos desajustados. Também porque deste lado da cidade, ninguém se presta a sair à rua com facas, chapéus de chuva e tesouras para amolar.

O amolador deve ser assim uma espécie de peça de um museu, para dar vida à cidade que existe agora dentro de outra cidade na Zona Oriental da Lisboa. É que do outro lado da cidade, não se ouve este som, que desperta qualquer alma a precipitar-se para a janela. Qualquer dia saio mesmo à rua a tentar perceber se o amolador ganha agora a sua vida, não, a amolar objectos de tortura, mas a entreter a zona mais privilegiada da cidade.

DM/Dakini in Café da Manhã

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Julgamentos

Em resposta aos que me julgam, sem se darem ao trabalho de saberem quem sou de verdade, eu assumo-me a inaptidão em pessoa quando o jogo pressupõe saber qual o mais hábil.

Quando se sente tudo o que se diz, e se diz tudo o que se sente não há julgamento que valha. 

A condenação é um fardo de palha a arder.

Lugares

Assimilar o transcendente, por vezes, é ficar dependente de uma partícula desintegrada de um universo alquímico que já foi remanescente em qualquer lugar do nosso Universo.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

A minha queixa de hoje

Às vezes queixo-me, às vezes falo, às vezes grito, mas nem sempre choro, (gostava de conseguir voltar a chorar), assim como nem sempre me arrependo de algumas coisas. 
Nem sempre me arrependo, quando sinto que fui tão somente ingénua e/ou "parva"....(parva", que é como muitos veem a ingenuidade), mas nem sempre me arrependo quando sinto que fui sempre sincera e não maliciosa.

Às vezes durmo, às vezes sonho, outras nem durmo nem sonho, mas tenho os olhos abertos para o tecto, a tentar imprimir nele os afectos perdidos, enquanto me queixava para alguém que não ouvia mas simplesmente comprimia tudo para depois rasurar em cruz todos os afectos partilhados à mesa do café.

Os encontros são mesmo isto...outras vezes nem chegam a ser nada, outras passam por um crivo para limpar sementes e outras coisas, mas ao mesmo tempo uma aprendizagem, com as mudanças que estão sempre a acontecer, entre deixas e o toque cada vez mais abismal das pancadas do bastão de Moliére


ÔNIX