segunda-feira, 4 de maio de 2015

Rente à pele

Tirem as sedas
e as lantejoulas
e o verniz que se escorre
nos pés magoados

Tirem as gravatas
e as camisas
passadinhas pelo ferro
puxado e repuxado
por mãos cansadas
com unhas rentes à pele
dos dedos
e nas mãos um punhado
de queixumes

Tirem todas as coisas
que vos adornam
em torno dos olhos
e façam do olhar 
um movimento quebrado
mas não atiçado
contra o que não continuará 
a dar-vos o “devido valor”

Devido, ou imerecido
porque novos ventos
Já vêm a caminho
com novos adornos
para o corpo
e um leve suspiro 
a sair-vos da boca

ÔNIX, pseudónimo de Dolores Marques

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Tremem-me os dedos

Tremem-me os dedos só de pensar em escrever algo que vos incomode, mas mesmo assim eu escrevo, porque não sou eu que escrevo, mas o tremelique dos dedos.

O pensamento, às vezes manifesta-se bem junto ao ponto onde os sentimentos e as ideias se confundem, e depois dão-se todos os encontros: os imediatos e os prontos a comer, como um “food & thought” dos tempos modernos.

E eu gosto de Vos ler assim com um “pensar tosquiado”, como quando via tosquiar as ovelhas lá na minha aldeia. Era preciso uma pontaria afinada na ponta de tesoura para não cortar a pele do animal. 

Dolores Marques

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Coração da terra - Juntos, daremos as mãos

Queremos muito, com a condição de que seja breve e aconteça no imediato momento, tal como se mata a sede, se sacia a fome e se alimentam vontades novas. Estas, a imporem-se sangue quente em corpos estranhos, almas em peregrinação pelo mundo dos homens e espíritos incautos no caminho que os levará a Deus. 
Vive-se um tempo de incertezas e insatisfação. A solidão fecha caminhos, enquanto as vozes de um silêncio morredoiro, cavam flancos e abrem fronteiras onde só o ser humano pode chegar. 
Agora, toda a obra nasce e morre em cada noite prestes a chegar. Mas, já não há noites nem dias. Tudo avança contrariamente desde que se afundou o farol no alto mar. Cessaram os encontros de mãos estendidas. 
Os remos vão incertos remando contra a maré, enquanto nós nos estranhamos. 
Estranhamo-nos tanto quando nos encontramos! 
Então porque fazer de conta que os encontros são ferozes na amizade? Porque se medem as amizades, se quantificam os sentimentos tal uma raiz quadrada mal-intencionada de verbos acabados em (ar), como se o verbo amar fosse só um tempo a terminar, sem sequer começar? 

Queremos tudo na justa medida. 
Então, justificam-se todos os erros com a morte, quando se diz: “coitado, já lá está, que Deus tenha misericórdia da sua alma e lhe perdoe os pecados”. 

Elege-se assim uma nova medida para medir todos os gestos, por quanto justificar, o que por si só, está justo e edificado.
Gritamos por misericórdia, pelos que em nome de Deus se entregam em sacrifício, arrastando para o cadafalso, outros. Divinizada fica a morte. Profetiza-se o fim, com a condição de se chegar imaculado com as mãos ainda a escorrer sangue pelos mortos e pelos vivos, e por todos os que não sabem rezar.
Rezamos o acto de contrição e juramos amar-nos uns aos outros, como se tudo tivesse que ver, ou com a fé, ou com o medo que temos de não ter fé. 

Se por um lado tememos a Deus pelos pecados que cometemos, por outro, lamentamo-nos pelos juízos que fazemos dele. Cuspimos na cara uns dos outros como quem cospe no prato onde comeu. Chegamos mesmo a duvidar da nossa crença enraizada na fé que julgamos conhecer. Existimos então para o que der, e para o que vier. 

Todavia, variáveis conhecidas e simétricas aos desejos, compõem-se em partes iguais, para o que vier a ser quando já nada se conseguir somar nem dividir em partes iguais. Se o retorno for gratificante, valerá a pena volvermo-nos no regresso a Deus e voltarmos como almas novas a começar do nada, para aí, acontecer o inevitável traduzido nas várias figuras geométricas onde se traçou, faz tempo, os vários caminhos da alma humana. 
A evolução natural faz-se caminhando. Juntos, daremos as mãos e tocaremos os pontos luminosos que habitam em cada um de nós.
Unidos, pois, na continuidade dos abraços, ocupando o espaço de cada um, ao derrubarmos muros e outros murais castigados pelo desnorte dos nossos gestos. 

“Atrás de tempos, vêm tempos, e outros tempos hão-de vir”, escreveu o poeta, como quem sabe de um tempo morto e de um sol-posto, mas a luzir por dentro do nosso horizonte. Vingaremos pois, os contratempos nas insígnias da boa aventurança.

Dolores Marques in Coração da Terra, Rúbrica Quinzenal, Notícias Castro Daire

Tenho a fé
resguardada no olhar
tal estrela que se recolhe
num ponto equidistante
do infinito

Dou-ta se a quiseres reescrever
como só tu a sabes ler
nas orquídeas  brancas
que nascem no vale dos lobos
onde se recolhem os aflitos

Dolores Marques

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Nada

Todos voltamos à origem. Resta saber sobre esse ponto esquecido no espaço que ocupamos, quer seja este, ou qualquer outro no espaço etéreo. 
O que é o “nada”? Inexistência, o vácuo, o vazio absoluto, um buraco negro no Universo? Mas se o “nada” existe para nos dar a percepção da não existência, então é porque existe algo.
O “Nada”, conduz-nos a muitas ilações, e quase sempre tecemos considerações filosóficas sobre o seu conteúdo. 
Mas se no “nada” existe nada, então porque procurar algo que não existe?

“Deus”, uma palavra forte para quem acredita na sua existência. 
“Nada”, outra palavra forte para os incrédulos na existência de Deus. 

Estes homens de pouca fé sabem pouco da vida que lhes permite serem vida neste ponto que deve ter sido um “nada”, mas agora é tudo o que Deus quer. Pensarmos nestes conceitos é termos consciência e, se ela existe para nos levar a pensar, então outras formas elevadas do Ser estão presentes para nos levar onde Deus quiser. Procurar entender os sinais é ir longe na procura de um nome. Assim o fiz, preenchendo um espaço nas minhas memórias com um nome sonante, uma força viva da terra. 
Terra agreste no meio da nada, trabalho e mais trabalho e o Nada sempre presente ocupando o espaço dos que viviam na miséria, com fome de tudo. Fome de comida,  fome de se saberem gente e de se apresentarem sem medos, como tal. 
Foi no meio deste Nada que nasceu a minha curiosidade. Penso que se ela tinha consciência desse nada aparente, então terá feito desse nada, um caminho para ter algo, limitando-se a sobreviver. (Curiosamente sobre tanta coisa e nada sobre coisa alguma que existe nesse nada a empurrar o cosmos, sabe-se lá para onde). 
Nada – uma palavra solta a revelar-me ainda alguma coisa. Existe para dar vida ao próprio nada.

Dizem que os nomes com os quais nos baptizam, revelam muito da nossa personalidade. O nome representa a força vital de um indivíduo.
Pensando nisto, tentei extrair algo desse universo do nada que o fez ser um Ser na terra de ninguém, e continuar a inseri-lo nas minhas memórias. 
Tudo se encontrava ausente, inexistente, mas ao mesmo tempo, transparente aos meus olhos. Tanto, que cheguei a ter visões de um nada quase a saltar-lhes da retina, como se fossem o depósito de todas as cegueiras ainda vivas.

Precipitei-me então para outro cenário onde o tudo é ainda permanência. Estava ali todo espalhado pelas diversas imagens que constituíam o final do primeiro acto. Os actores tinham deixado vestígios da sua representação. Os corpos sumiram, as palavras, silenciaram-se, os olhares, fecharam-se, as suas bocas serviam de entrada para um poço sem fundo. Espreitando, dava para perceber como era pesado o ar que enchia esse buraco negro. Tudo se materializaria de novo, enquanto do outro lado tentava a todo o custo tocar aquelas partículas desintegradas de um tudo/nada ainda vivo.


Dolores Marques 


terça-feira, 1 de julho de 2014

Desassossego

Quando existem Pessoas com a capacidade intrínseca de esmiuçar palavras, verso a verso, poema a poema, revoltam-se as páginas em branco .....sente-se a respiração ofegante do livro e no imediato momento permite-se ficar em silêncio.
Muito agradecida a Sofia Gabro, Filipe Campos Melo, Ana Coelho e São Gonçalves pelas palavras novas que permitiram que o livro repousasse no seu desassossego.