quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Por termos em nossas mãos o mundo

Com São Gonçalves

- Aproxima-se a noite e eu contemplo o céu, a imensidão do mundo, e tantas tempestades adormecidas neste céu rasgado de magia. Os temporais acalmaram o desejo, apenas percorro a via-sacra da vida, para que dela renasça mais forte e mais serena.

- Impetuoso o gesto perecido no além. Mereceu tudo e nada lhe foi doado, a não ser dor da partida, sem conhecer a verdade do aquém. Rompe as nuvens com desdém e alcança o mar acetinado, onde a partida já foi chegada. O dia já nasceu na noite e na noite nascerá o dia. Percorre todos os trilhos das baixas marés, em absoluto silêncio. Ouve-se agora o som eterno da alvorada.

- Encosto-me ao parapeito do tempo. O meu corpo abriga-se nas encostas e a alma cede ao desejo de mudança. Os cansaços dissipam-se nesta grandeza infinita e as vozes calam-se quando a brisa do vento me acaricia o rosto.

- Correm rios no teu corpo. Descansa agora, enquanto o sono não vem. Já o toque às almas aconteceu quando o sol se pôs. Nada se afigura distante. Só o Universo é grato pela luminosidade crescente em cada corrente que trespassa o véu que te enlaça.

- Voluntário o desejo de transformação que se aninha nas dobras dos dias. Invento e reinvento amanhãs promissores. A vida decorre sempre entre as madrugadas e as noites que se consomem pausadamente, sem pressas.

- Se todas as manhãs fossem só tuas, serias o tempo de mudança a madrugar nos teus olhos. Mas quem sou eu, se não uma força a caminhar contra o tempo? Se conseguíssemos acomodar o tempo no nosso pequeno mundo, já teríamos dado graças a Deus por termos em nossas mãos, o mundo.

-A paz como alimento das noites, é o consolo que ainda me resta neste tempo incerto. Na minha pequenez colho do tempo o que ele tem de mais belo para me oferecer. Nem sempre me afasto das sombras, nem sempre me protejo dos temporais. O céu ora se tinge de negro, ora se aclara de luz.

- E nesse meio tempo, as luzes acendem-se em todos becos onde te escondes. Será sempre um dia ou uma noite a menos nos nossos sonhos. Sabias de um tempo em que se colhiam orquídeas brancas nos matagais?

- Nesta encosta acompanho os movimentos que transcendem o espaço e por vezes se elevam acima das luzes frágeis da cidade. E apenas as clareiras que se avistam
num horizonte a perder de vista, me trazem a luz tão desejada nas noites de procura.

- Existem credos em todas as orações. Crer num espaço inédito, e criar nele um campo de visão obrigatória para lá, é ter fé na nossa fé. A minha cidade sabe de todos os becos escuros e sombrios, e eu nada sei da cidade. Só vejo daqui as luzes ainda reflectidas nas águas do Tejo.


São Gonçaves e Epifania dos Anjos (Epifania)

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Prometeu

Zanguei-me com os Deuses, por não me prometerem levar ao seu céu. É que, aqui em baixo, sem promessas e profecias, não se vai a lado nenhum. Talvez exista um lugar único no mundo capaz de me acolher, mesmo que os Deuses adormeçam num colchão de água, onde já afundaram as mais antigas promessas. Se alguém souber onde é.....prometo que da próxima vez, não me zango, nem com os Deuses, e nem com o ser único da terra, mesmo que este seja um Deus em vias de extinção. 
Prometeu já se calou uma vez. Haverá de se levantar das cinzas. Enquanto isso, vou aliviando todos os altares, para que me seja dada ordem inversa, ao prometido. 
Finalmente o céu desceu à terra!

DM; (Dakini – Eventos 2014)

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Cansa-me

Cansa-me não saber de onde vens, e porque vens, se no vir arrastas atrás de ti, tantos temporais, do tempo em que sabias que seria assim, mais ou menos …tudo um cansaço em demasia. 

Tudo é frio e monótono, neste tempo, neste espaço. Tudo é ordenado por ordem inversa. Tudo se apresenta disfarçadamente colorido de cores metafísicas, híbridas e distantes. 


Dolores Marques (ÔNIX)

Predestinações

E se o vento rasgar todos os implantes, frequentadores de uma ordem desequilibrada, e os desfilar farrapo a farrapo, no chão que pisamos? 
Calcaremos todas as sobras desse malefeito, que enquanto não cega, cada um de nós, vai sendo remendo em trapo a cobrir os corpos gélidos e travestidos, amantes das noites que nos afogam nos seus silêncios malditos?

Já esta espera, é por fim, o fim predestinado a ser vento a soprar em todas as direções. Mas, se o tempo renegar este meu fim, serei então mais um daqueles espantalhos, a enfeitiçar o ar que respiro. 

Eis que mais um evento acontece! Inspirarei então a nova ordem de todas as coisas, naturalmente indiferentes aos padrões canonizados e exaltadas no fim de tudo.

Dolores Marques (Dakini – Eventos 2014)

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Um fundo

 A fuga, é cada vez mais, uma constante. Perdidos, desnorteados, amedrontados, ao ponto de termos medo até da nossa própria sombra. A desconfiança reina, e a verdade é um foco direcionado para dentro, um fundo onde ninguém chega - O reinado da nova ordem desorientada. 
Dêem-me um pouco do vosso tempo, mas não para falar da inoperância dos sentidos, e de tudo…. o que nos faz infeliz ou até mesmo feliz, e eu vos darei um pouco de mim.

É tudo o que o ser humano precisa, e ainda não viu, que só um pouco de cada um, faz a diferença no ser maior e mais verdadeiro com ele próprio. 

Dolores Marques - Ônix in Eventos 2013

Sentidos esquizofrénicos

As manhãs são sempre uma correria desenfreada. Ninguém fala, mas todos conspiram contra a sua sorte. Uns vão bem, outros vão mal e outros, assim-assim, e ainda os outros, como Deus manda. Mas, hoje os mandos e desmandos chegam-nos de um sentido obrigatório. Corta-se o sentido normal das coisas verdadeiras, e criam-se novos sentidos inversos à verdade dos nossos olhos;  uns abertos, outros fechados para o novo sentido. E assim vamos seguindo;  uns olham para a direita, outros olham para a esquerda, e os outros até parece que acordaram com umas talas nos olhos. Só veem o que lhes convém, não vá o diabo tecê-las e depois caírem num buraco sem fundo qualquer, como este de hoje que nos impede de andar para a frente.

E o polícia de trânsito, coitado, simplesmente acordado, para o que lhe ordenaram, num sentido original e esquizofrénico, vai acenando com uma das mãos o nosso novo sentido. Meu Deus, o que um simples buraco a precisar que lhe tapem a boca, provoca no movimento matinal duma cidade, que dorme de dia e acorda de noite, para os mais estranhos sentidos obrigatórios. 
Simplesmente o caos a acordar, ou a adormecer a cidade.

Nota; Tenho dias,  que me falta a paciência para tanta anormalidade. Somos um beco em ruinas, somos simplesmente o acaso de uma ordem inversa à normalidade


Dolores Marques: Dakini in Eventos 2013

Tic-tac

Tenho dias que só me apetece rebolar  com as horas. É assim uma espécie de desalento, talvez uma fuga para novos pontos de encontro. Chegando lá, ouvirei o tic-tac, tic-tac dos ponteiros do relógio, e saberei ao certo aperfeiçoar os meus tiques que começam já, a dar mostras de algum cansaço. É que, quanto mais procuro a perfeição, mais imperfeita eu pareço.


Dolores Marques; Dakini in Eventos 2013