terça-feira, 30 de abril de 2013

Corpos


comunicando
seremos todos um 
na graduação
do tempo
no emaranhado
dos dias
na invisibilidade
das noites
na inconstante 
previsão do momento
em que um corpo
se levanta

mas há uma calamidade
no mundo
esvaindo-se
na passagem
enquanto não cai

mal dos que se erguem
e não têm tempo
nem espaço
onde enterrar
os mortos
e
sacudir os vivos


(Dolores Marques in Dakini - Modus Informe/10)

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Histórias sem passado e nem presente


Contei todos os quadrados e ultimei o meu desejo de ser a figura mais carismática de todas. Ajoelhei e orei a todos os santos, menos àquele que me disse um dia que seria só mais uma peça jogada nas masmorras onde todos dormem, enquanto não chega o dia do último sacramento.
Avisei-os a todos, mas... não me quiseram ouvir. Fizeram ouvidos moucos e retrocederam ao sítio onde tinham deixado os olhos. Ficaram assim sem conseguir enxergar as marcas dos seus pés de chumbo e, curvaram-se então todos para a mais bela oração de todos os tempos.
Era chegada a hora de se redimirem. Deitaram-se todos. Colocaram as cabeças, cada uma em sua quadrícula, para ser posta à prova a sua inteligência. Emocionaram-se todos aqueles que não cabiam nos quadrados e foram feitas as contas elevadas ao cubo para satisfazerem a sua vontade de se materializarem ali mesmo.
Da diferença resultou a soma. O equilíbrio forçado foi aceite por todos. Ficaram só histórias sem passado e nem presente. Renasceram para fazerem uma nova história e aí… começa tudo de novo!
Até quando, até quando para os preparativos de uma nova história? Mas agora sim, com princípio, meio e fim, em todas as figuras geométricas.

(Dolores Marques; Dakini - Eventos 2013)

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Livros/ Leituras - Mário Massari


Sobre “BORBOLETAS NO AQUÁRIO ” de Mário Massari - o Poeta/ o Homem, que me convidou a escrever algo, para que ficasse no seu livro
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Deixando-me seduzir pelo abstracto figurativo de Mário Massari, irei de encontro ao seu dizer, ao seu querer ser em todos os poemas, um mundo a descobrir novos mundos. Será este um voo recto ao encontro da verdade que a sua transcendente busca me mostra - um todo que permanece intacto na sua forma enquanto Poeta? Será somente um voo oblíquo, levando-me para o interior de uma sequência de imagens que me mostra a vida num conjunto de formas modeladas nas suas mãos, enquanto Homem a caminhar sobre a terra? Em todas as minhas movimentações para me encaixar neste trajecto, encontro uma certeza, a de que as palavras que compõem o seu estilo sui generis, se predispõem a seguir novos rumos, a escalar montanhas, a levitarem por entre as brumas da memória ao dizerem-se a elas próprias, enquanto recebem vida para a composição de uma história exequível, transcendendo a realidade factual, sulcando um vazio, através de caudais sistémicos, dando vida à própria vida. Enquanto Poeta/Pessoa, Mário Massari, tem a capacidade me fazer entrar num mundo; adverso por vezes, afável outras tantas, tais os modos e formas que me obrigam a novas movimentações a tentar renascer das sombras.


É um facto, que Mário Massari tende para uma composição que pode ser observada em diversas matizes, obedecendo por um lado, a verticalidades faustosas nos mais distintos e aparatosos ângulos que nos dão uma visão distorcida da realidade, mas, por outro, a uma encenação perfeita, que sabemos ser a verdade dos nossos olhos, retinas luminosas a quebrar cansaços e a disfarçar a penumbra que nos vai transformando em paradigmas de uma inteligência exterior, mas fecundada num interior vazio, num tempo de memórias.


Todo o poema é caracterizado por uma ordem que o poeta tenciona manter. Contudo, atendendo aos vários predicados do poeta, ele deixa de ter uma ordem para obedecer a várias ordenações onde o ser se faz vida, e a vida se revela em vários seres, movimentando-se através de várias circunstâncias que irão dar luz própria ao poema. Se por um lado o poeta vive à custa do que o poema lhe exige, por outro sobrevive uma pequena centelha que vai crescendo para lhe dar cor, movimento e sabedoria interior, num labirinto de saudade, onde só se perde quem pretende ser vision
ário do fantástico mundo a descobrir: um jogo multifacetado de cores, um corrimão de espelhos que lhe permite observar através do seu próprio reflexo, a dimensão que o separa da realidade que lhe foi dada à nascença. Transfiguram-se assim todas as partes densas, sempre que na sua órbita circunda um movimento aberto a novas abstracções, a tentar descobrir o destino que lhe cabe nas mãos com as palavras todas que o merecem.

São estas figuras desenhadas nos traços que o caracterizam Homem/Poeta/Pessoa que lhe irão transmitir onde e como chegar à essência que lhe é dado observar, sempre que tentar sair de um espaço fechado ao alargar os horizontes através de uma focagem direccionada para o mundo exterior. A sua poesia, transcende a realidade física, o toque, a observação linear, para que nos movimentemos através de uma filosofia de vida que nos mostra onde e como começar a elevar o pensamento, a tocar um mundo que está tão perto, como perto estão todos os olhares que se levantam e iniciam o único voo possível. Aquele que nos fará chegar, (sem no entanto termos a percepção da viagem), à conclusão dos actos que nos fazem ir, voltar ou simplesmente obedecer aos espaços que se abrem, e ficar lá, até ao próximo voo mais profundo, num universo interior saciando a nossa sede de amor, de fraternidade, de compaixão, unificando os pontos e traçando novos limites no tempo.

Dolores Marques - 2011

Livros/leituras


Entre a realidade e a ficção, há sempre um momento tão nosso, tão subtil, que só nós reconhecemos e avaliamos, até transpormos o portal digno da nossa mente criativa e sonhadora. Aí, a alma segue o seu rumo. Nós acomodamo-nos, até que se faça luz em todos os momentos obscuros que nos tentam reduzir a nada. Mas, e se o nada existir dentro dos nossos sonhos, como se o tudo que fizesse parte desse nada, fosse a força a criar novos momentos?

Livros/leituras


“Este é um livro importante, a crítica presume, porque lida com a guerra. Este é um livro insignificante, pois ele lida com os sentimentos das mulheres numa sala de visitas”
Virgínia Woolff

Foto de Vitor Bom Norte.





sexta-feira, 12 de abril de 2013

Alma de Palhaço


Movem-se os olhos
Quebra-se o corpo
E curva-se a alma
Perante a plateia
Que ri
E sorri
Mas não sabe
Onde aportar
A sua própria alma

Mas é no palco
De tábuas rasas
Onde cai
Uma lágrima
Que ele sorri
E ri

E são folias
Em rebeldia
E são almas
Em plena euforia
E ele volta
E assume-se
Em reviravolta
Nos traços marcados
Do rosto
E ainda assim, sorri
E ri!


(Esfinges 2011)

Como te chamar




Não me interessa mais nada, a não ser como te chamar para o mundo dos vivos. O mundo que te elegeu sabedor de todas coisas. Nelas, há um forte desejo de transformar a vida e não permitir que te rendas, sem antes saboreares o gosto da liberdade.


 Para isso, basta que levantes a cabeça e olhes de frente, porque as pedras da calçada já conhecem bem os teus passos. Querem agora conhecer a forma como andas , pensas e dás uma nova cor às tuas ideias. Faz delas um jardim, e dos teus passos, pétalas delicadas.