"Príncipe das melhoras horas, outrora eu fui tua princesa e amámo-nos com um amor de outra espécie, cuja memória me doí" Fernando Pessoa
sexta-feira, 12 de abril de 2013
Alma de Palhaço
Movem-se os olhos
Quebra-se o corpo
E curva-se a alma
Perante a plateia
Que ri
E sorri
Mas não sabe
Onde aportar
A sua própria alma
Mas é no palco
De tábuas rasas
Onde cai
Uma lágrima
Que ele sorri
E ri
E são folias
Em rebeldia
E são almas
Em plena euforia
E ele volta
E assume-se
Em reviravolta
Nos traços marcados
Do rosto
E ainda assim, sorri
E ri!
(Esfinges 2011)
Como te chamar

Não me interessa mais nada, a não ser como te chamar para o mundo dos vivos. O mundo que te elegeu sabedor de todas coisas. Nelas, há um forte desejo de transformar a vida e não permitir que te rendas, sem antes saboreares o gosto da liberdade.
Para isso, basta que levantes a cabeça e olhes de frente, porque as pedras da calçada já conhecem bem os teus passos. Querem agora conhecer a forma como andas , pensas e dás uma nova cor às tuas ideias. Faz delas um jardim, e dos teus passos, pétalas delicadas.
quinta-feira, 11 de abril de 2013
Muros
Sabia ao que vinha. Daquele lado, o vento assobiava aos meus ouvidos, como se eu fosse a alegria de um dia sim a sorrir para o céu. Adivinhava-me e sorria-me sempre que eu lhe estendia a mão. Se não fosse pela minha fraca audição, saberia até ao que vinha no exato momento. Para quê tentar saber as coisas antes delas sucederem como sucedem as rajadas de vento nos meus ouvidos?
Bem gostaria de me permitir ser em todos os dias como o vento a querer saltar os muros que ladeiam a minha casa. Estão agora cobertos de musgo. Arredei todos os tijolos de vidro, para que não se sentisse nenhuma silhueta na parte de fora. Cobri-os com tinta plástica da cor do alcatrão e até colei neles recortes de jornais diários, onde se podem ler as notícias todas que nos fazem cair em nós logo pela manha. À noite já não é a mesma coisa. A tinta escorre, os recortes ficam todos torcidos, e ainda se podem ver transparências a quererem sair de um espaço fechado.
Hoje à noite ligarei a Televisão no canal panda. Aprendi com os meus netos. Nada melhor do que passar um tempinho antes do jantar a ver desenhos animados. Animam, animam e descontraem os músculos da cara. Não fico com os olhos tortos, se é que me faço entender. Se não entenderem, é porque não têm o canal Panda e vêem a casa dos segredos, ou a Gabriela. Não! A Gabriela já terminou! Dessa até gostava. Não tenho mais nada que me faça rir à noite. Gostava mesmo daquele ar descabido de alguns mestres das artes antigas, a tentarem usar o que por si só já está mais que usado. Aquela frase deixava-me de pernas para o ar de tanto rir. “Deite-se que vou-lhe usar”.
Bem, mas agora pensando bem, vejo que terei que pintar os muros com outras cores. Vou usar cores berrantes e grafitá-los todos, para se poderem ver de cima. Assim, quando o vento se quiser fazer ouvir nos meus ouvidos e estiver para chegar, poderá lançar-se em pára-quedas . Fica logo em casa. Para alguma coisa terá que servir este meu esforço, em ter cores que saiam fora do âmbito normal dos usos e costumes de um povo a construir muros e outras coisas.
O Além
Gostava que lhe falassem à noite. Era sempre assim, quando deitado na pedra fria, comunicava, com o que julgava ser o além.
Celebrou-se um acordo que lhe permitisse a ocupação daquele espaço, sempre que a seu jeito lhe forneciam todos os ingredientes, para que, sonhar com os anjos continuasse a ser aquela doce sensação de ser levado para outro lugar.
- Ou o além onde os anjos dormem, ou o aquém, onde nem sempre se fecham os olhos por medo do escuro.
Falácias

Não existem alternativas! Passamos de um minuto ao outro, a impostores de verdade, porque nem sempre a verdade é aceite por quem vive uma vida de mentiras. É só repararmos na performance teatral, dos que, defendendo a sua mentira, encarnam um papel onde é representada a verdade dos outros.
A verdade passa a ser mentira, porque se encontra perdida em falas e falácias de gente esquecida que é gente de verdade. Então dá-se o confronto. Enfrenta-se a mentira com a verdade camuflada entre papel de parece e algumas telas em branco, ainda por pintar.
Depois vêm os sintomas de envelhecimento da pele. Sim, porque à flor da pele, está já a nascer a mentira camuflada. Uma verdade, que parece querer tatuar os olhos, de quem vê que há mentiras que parecem verdades, e verdades que parecem mentiras.
Orquideas
quinta-feira, 23 de agosto de 2012
Filipe Campos Melo disse sobre "já me vi em dias de sol"
Filipe Campos Melo disse, sobre o poema “Já me vi em dias de sol”
O que é a poesia?
Como se escreve?
É o verso inato ou apreendido?
A resposta às questões que coloco não são simples ou singulares.
A interpretação de um poema é talvez um caminho para a sua formulação (sempre subjectiva).
Acredito que a boa poesia deve ser sempre apreensível, mas tal não significa necessariamente que deva sempre reduzir-se a uma imediata simplicidade (até por correr o risco de a destituir do que creio ser uma das suas essências – “dizer o óbvio de forma não óbvia”).
É que, acredito mais ainda, um dos maiores prazeres de um leitor (falo dos leitores que merecem o poema) é demorar-se nos versos, deter-se nos seus significantes, interpretar o seu significado (muitas vezes reconstruindo-o).
O encontro da tua poesia (já lá vão uns anos...) e a irrecusável vontade de a interpretar (pela sensibilidade, pela sabedoria, pela qualidade imersa ao verso) contribuiu significativamente para a minha teorização poética do verso (sempre inacabada, sempre incompleta).
Este poema (que bem me soube reencontrar a tua plenitude e maioridade poética) devolveu-me às questões primordiais.
O poema tem um forte simbolismo, escrito em excelência, sublimado por um tom (dolorosamente melancólico) que arrebata.
Apercebo-me de três marcados momentos.
O Primeiro Momento
Constituído pelas quatro primeiras “quadras”, com quatro subtempos,
Sendo o primeiro, o lugar/cenário
“já me vi em dias de sol/ sem sol/ que pela peneira/ se repartia/ à tarde no quintal”
O segundo, a voz
“havia lamúrias/em surdos/que pareciam vento/nas levadas”
O terceiro, a sua ausência (o sonoro silêncio)
“havia silêncios/no entardecer/que brincavam/às escondidas/nos arvoredos”
O quarto, a percepção do tempo (que decorrido ainda não ocorreu)
“havia caminhos longos/a fazerem-se breves/nos meus passos/ainda frescos”
O primeiro momento, em seus subtempos, é um enquadramento sublime do todo.
Sobressai o traço da inocência, contudo já traçado por uma iniciática melancolia (que se impõe como percepção irrecusável).
O Segundo Momento
Constituído pelas quinta a oitava “quadra”, igualmente com quatro subtempos,
Sendo o primeiro novamente, como recomeço, o lugar/cenário (ainda o inicial mas já desigual)
“já me vi em dias de sol/ sem sol/ que pela manhã/ enchia as colinas”
O segundo, o mundo (já estranho)
“havia gigantes/adormecidos/no caminho/das giestas”
O terceiro, de novo a voz (igual e diversa)
“havia trôpegos/corpos/a escutar/o canto dos pássaros”
O quatro, como súmula, a percepção (passo da sabedoria)
“havia gente/que não se sabia/ser gente”
O segundo momento, em seus subtempos, é um passo profundo.
Sobressai o traço da estranheza, marcado já por uma intensa melancolia (que se impõe como percepção da percepção).
O Terceiro Momento
Constituído pelas nona a décima quinta “quadra”, com dois subtempos, que se fundem, harmoniosamente, tornando-se intrinsecamente dependentes.
O Primeiro subtempo
“já me vi em dias de sol/sem sol/a sacudir/o sino da capela”
Onde saliento o “sino” como símbolo maior deste momento terceiro.
O sino que toca e, em seu badalar, anuncia, como voz sem voz, o perder da vez.
“havia chuvas/pelos campos/a encher/as últimas pegadas
Onde o lado enegrecido, que perpassa o poema, se assume de forma quase explícita,
Logo seguido do seu contraponto, indicando que todo o tempo é ciclo em constante reinício.
“havia raízes tenras/a nascer/nas enseadas”
O Segundo subtempo
“já me vi em dias de sol/sem sol/a engolir/os últimos sacramentos”
havia as indomáveis/árvores/ainda de pé
havia a brisa/nas suas folhas/ressequidas
havia chocalhos/escondidos/nos matagais”
Onde sobressai o jogo de contrastes e oposições e a forma, sublimemente subliminar, como os mesmos ora se expressam, ora se ocultam.
O Quarto Momento
Constituído pelos últimos 8 versos”,
“já me vi em dias de sol/Sem sol/a haver/será só um único/ponto/onde o olhar/se perde/no horizonte”
Onde encontramos o verso mote do poema (“já me vi em dias de sol/Sem sol”), que é repetido no início de cada momento, como reinício do mesmo (opção muito conseguida que introduz no poema o seu lado mais fonético impondo uma cadência que reclama boa declamação),
Mas aqui com uma nuance (muito relevante) em relação aos momentos anteriores (que serve também de ponto de encerramento)
É que, afinal, talvez haja Sol, mesmo que tal possibilidade seja remota (no espaço/tempo)
“a haver/será só um único/ponto/onde o olhar/se perde/no horizonte”
Na sublime excelência que sempre me encantou na tua poesia
Assim é este teu poema.
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