quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Ao Fundo de Mary

Amanhã é um novo dia. Hoje já começa a ser tarde para pensar, isto se o pensar se limitar a esperar. Caem as folhas das árvores. Este remoinho seco já não espera pelos ventos ciclónicos de amanhã. Faz-se cedo nos meus pés. Conto os buracos no chão, desde o início do inverno. Penso em como Mary se movimenta entre uma rua e outra, e como por vezes, arrasta os seus pés de chumbo. São muitas as quedas, porque o amanhã não espera pelas novas folhas. Ao fundo, também o Tejo afunda algumas estrelas desnorteadas, que aguardam para brilhar nas noites mais curtas. 

Indiferentes os meus passos, seguem rumos que me parecem ser os de amanhã. Mas a rua onde moro, é ainda um caminho longo. Custa-me passar por ela, sem lhe contar os buracos, de quando ainda era outono. Entre a Zona J de Chelas, passando por Braço de Prata, encontro-me agora junto às docas do Poço do Bispo. Alguns pescadores sentados, outros de pé, seguram as canas que se erguem. Quase se afundam no nevoeiro que teima em esconder as correntes agora paradas. Nada se move, a não ser este bafo quente que sai agora da minha boca. Faço-lhes companhia, eu e os remoinhos que arrastei, com algumas folhas ainda presas nas fivelas das minhas botas. Tenho que trocar o calçado, isto para não trocar os passos, que me obrigariam a trocar de pés. Mas, com tudo isto, ainda é inverno, pelo que não se consegue ver ao longe, por causa do nevoeiro(...) 


Dolores Marques com Dakini “Ao Fundo de Mary” (a editar)

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