segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Dá-me o fim deste tempo na tua boca (De Guel-Vaques)



Tenho um dia cheio de horas e um maço de folhas em branco para te ver esta noite, até, que me acabem os cigarros. Dá-me o fim deste tempo na tua boca, quando chegar sábado, a beber pelos buracos e garrafas partidas na calçada, depois do sol. Estou farto do mundo e de tudo, e de como me vejo, sempre no desencontro das palavras, em bons dias quase a meio da tarde. Trago a culpa dos copos a mais e noites vadias marcadas nos corpos sem rosto, funda no peito. Faltam muitos espaços ao tempo, para o teu beijo matinal, enraizado na terra de nós dois entre os lençóis brancos. E hoje acordei tão tarde nos teus olhos. Queria essa tarde nos Himalaias a demorar uma vida, inteira nas tuas mãos, como nunca a tive nas minhas. Há tanta gente que anoitece nos meus olhos, que já não sei como olhar para tanta gente, amanhã, quando andar com o dia cansado nos pés pela rua, assim, como todas as árvores a morrer de pé. Quero me levantar cedo na seda da tua pele e adormecer mais uma vez na suavidade do teu perfume, até me levantar cedo para o dia. Faltam muitos espaços ao tempo na manhã do teu beijo. Dá-me o fim deste tempo na tua boca, antes que seja domingo, e não a perder mais na minha. Tenho um dia cheio de horas e um maço de folhas em branco para te ver esta noite.Tenho um dia cheio de horas e um maço de folhas em branco para te ver esta noite.

Texto de Guel-Vaques (Nuno Marques)

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Nuno,
Ter na medida certa de um desejo, um desejo de ter todas as folhas onde se possam escrever os desejos de uma vida inteira . O corpo aguarda pela concretização de todos os desejos da alma, a alma é seguidora de todos os passos que o corpo dá, em busca da tal chama que o guia, indicando-lhe os vários caminhos e os vários rostos, em olhares que se perpetuam na imensidão de um sentimento, onde cabem todos os rostos do mundo.

(À noite, a visão é uma oferenda desafiando os momentos que temos para nos dizermos e nos trazermos mais e mais, de algo que sabemos que existe, mas que tememos, só de o saber tão perto…)

Um imenso prazer ler-te e divagar pelas tuas palavras

Dolores Marques

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