quarta-feira, 31 de março de 2010

Fora de Horas (de José Luís Lopes)

Nem sei bem o que é ser poeta! Sei apenas que pode ser tanta coisa, e ao mesmo tempo não ser nada. Muitas vezes, escrevo o que apenas eu sei que existe dentro de mim; pedaços de um sentir que jamais serão palavras entendíveis. O meu amigo leitor, luta desesperadamente com o pretenso poeta e pensa: É um louco. Mas como amigo que é, esforça-se na tentativa de ouvir as palavras, acredita que os poetas são como os búzios, guardam o mar para sempre dentro de si. Então, no ouvido, aparece o movimento das marés, e o cheiro das algas transformam o olfacto em vírgulas do poema. Mas as palavras têm vida própria e incrivelmente não leu o que eu escrevi. É agora a vez do poeta desconfiar do mundo que o lê. Mundo pequeno, para a sua ambição de querer ser o Universo.

(foto de minha autoria)

Ele sabe que estas palavras são apenas dele, são únicas, é código que apenas o seu sentir é capaz de decifrar.
- Com estas posso chorar sem que ninguém veja e também as lágrimas se tornam invisíveis.
Outras vezes o poeta diz tudo, e as palavras de tão despidas, apenas sabem sorrir, ninguém quer saber que vão vestidas, apenas com a simplicidade de quem acaba de chegar ao mundo. Procuram o que não existe, e depressa tudo recolhe ao sótão dos arrumos. Mas a esperança ainda escorre da caneta, ele sabe que a indiferença é afinal a sua sorte. Poeta é existir sem o tempo perceber que as suas palavras marcam um tempo. Talvez aqui ele aprenda de vez, que a sua arte não vive do seu momento, do seu amor, do seu sentir, da verdade ou da mentira, ódio ou desilusão.
A sua arte vive do interior do seu leitor, ele apenas lê o que o seu coração foi capaz de construir durante a sua caminhada.
-Triste sina esta de escrever para vós.

Choro hoje mais que ontem. Gostaria tanto de saber se um dia poderei ser poeta de verdade. Talvez um dia consiga pregar ao peixes, talvez os tubarões me queiram ouvir, talvez as flores saibam que há um momento no dia, que de dentro de mim se abre uma primavera. A dor enlouquece-me, nunca saberei se sou louco quanto mais poeta. Quero saltar para a água, levar comigo este poema que guardo dentro de mim, este que se um dia o conseguir escrever fará de mim poeta eterno e de mão estendida aos Deuses, luto contra todas correntes poéticas. Salvo pela esperança, trago comigo para terra todos os peixes que um dia escutaram o homem que queria ser poeta.

Um dia escreverei esta odisseia, um dia serei escutado. Mesmo que seja depois de morto, como um verdadeiro POETA.

josé Luís Lopes

Ouvi dizer que os poemas se escapuliram, porque não encontraram poetas à sua altura, no entanto para-frase-ando um grande Poeta deste sítio, "Nem sei bem o que é ser poeta! Sei apenas que pode ser tanta coisa, e ao mesmo tempo não ser nada" Nota-se uma grande desenvoltura na forma como lida com a poesia e não só, porque a prosa está aprimorada e mesclada com tons de incerteza, sobre a verdade de cada poeta dentro da poesia, notando-se nesta, um movimento interior capaz de aflorar a verdade dos sentimentos aos seus queridos amigos leitores.

Intrinsecamente, a união perfeita entre a verdade de quem lê com a verdade de quem escreve, criando a fusão dos vários sentimentos, emergindo a pureza das ideias.

Dolores Marques

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